terça-feira, 11 de outubro de 2016
Cinema no HU -111016 Do cinema que se faz nos silêncios
A experiência do cinema no hospital envolve primordialmente a invisibilidade e o deslocamento. Partindo dessa premissa não é difícil supor que nem sempre tudo sai como planejado, por melhores que sejam nossas intenções. Assim foi hoje, quando eu previra exibir The Red Balloon, belíssimo filme de 1956.Além disso, pela primeira vez eu tentaria propor uma atividade diferente da dobradinha exibição + debate. Com alguns planos do filme impressos eu tentaria fazer com que os pacientes contassem suas histórias. Quis o acaso que o equipamento não estivesse disponível e me coube perambular pelos corredores em busca de soluções que, infelizmente, não vieram. Acontece que o olhar que se abre para o exercício do cinema jamais encontrará sossego novamente. Sem descanso, a cada esquina novas histórias se apresentam, combinando realidade e poesia. E foi assim que, em um dia particularmente controverso da nossa história atual (momento de aprovação de uma PEC que congela os investimentos em Saúde e Educação por 20 anos) comecei a enxergar o hospital como um grande palco inserido em uma realidade completamente adversa. Aqui e ali os personagens se sucediam, como em uma peça bretchiana, tentando exercer sua função. Em todos os cantos sobressaem os buracos, seja nas paredes, nos leitos ou nas almas (me perdoem pesar a mão no drama. O momento faz-se necessário). Para o observador mais desatento não passará desapercebido o abandono das pilastras da entrada, os resquícios de obras inacabadas, que se sucedem sem descanso pelos corredores, a enorme fila de pacientes nos ambulatórios. Circulando sem cessar os profissionais de saúde, sempre sem parar um só momento, tentando preencher com seus corpos as ausências, financeiras e afetivas.
Daqui de onde olho, do desconfortável lugar de contar histórias em um ambiente onde tantas narrativas se confrontam (muitas desagradáveis), penso na cena seguinte, no próximo mês de um longo período sem investimentos em um dos maiores hospitais do país. Penso nas enfermarias, estufas no verão, geladas no inverno, onde se encolhem em seus cobertores pacientes que não podem apreciar a paisagem, posto que as janelas(concebidas para serem panorâmicas) estão cobertas de insulfilme descascado. Penso nas salas onde as macas, cadeiras e comadres se acumulam, sem substituição. Percorro os corredores onde as portas, envelhecidas, rangem e empenam. Me assusto com a rouparia, de onde um lençol pode levar semanas para sair. O que mais me assusta, contudo,não são os suprimentos, facilmente substituíveis,mas o material humano, esse único, pessoal e intransferível. O que ocorre se ele exaurir suas forças, perder seus recursos, recusar-se a continuar colaborando, ante a absoluta falência da instituição? O que restará da saúde como direito fundamental, intrinsecamente associada não somente à cura de doenças mas a garantia de bem estar(tanto individual como social?)Nos restará, indubitavelmente a morte e o esquecimento.
Impossivel, nesse lugar, não me lembrar de uma palestra, ouvida recentemente. Ali, onde Walter Carvalho deveria falar sobre direção de fotografia. Em dado momento o fotógrafo dizia que o obturador da câmera permanece apenas metade do tempo aberto, capturando o mundo.Na outra metade do tempo ele permanece fechado, fazendo o filme(atualmente o sensor) voltar à posição/condição “original”. Sendo assim, Carvalho concluía, parte do cinema se faz em nossas mentes no escuro e no silêncio. Daí sua importância para pensar e transformar o mundo. Assim, em tempos tão sombrios começo a pensar o cinema como mais do que uma experiência narrativa, mas em sua potência de ocupação de espaço, como estratégia, necessária e urgente, de reExistência.
terça-feira, 20 de setembro de 2016
“Mas é cinema mesmo? Daqueles de verdade?”
Cinema no HU.20/09/16.Enfermaria 9B13
Assim começa a sessão de cinema do HU. Dessa vez a proposta foi apresentada pela equipe de assistência social do HU, que pensou trazer diversão aos pacientes. O que eles talvez não soubessem é que a experiência do cinema foi muito além de distração e entretenimento. Por ser um projeto específico do serviço social, a sessão contou com a organização da “sala”, feita com o deslocamento dos pacientes para que pudessem ficar mais próximos da tela. Também tivemos a sorte de um dia mais escuro, o que torna a (quase sempre iluminada) enfermaria do HU uma sala de projeção mais de acordo com o convencional. A partir do momento em que os pacientes foram deslocados, em seus rostos já transparecia a expectativa pelo que se ia passar. Inicialmente seriam exibidos dois curta-metragem de animação mas, como um deles apresentou problemas de áudio, optei por exibir o sempre maravilhoso Tarja Branca que, para quem ainda não conhece, trata da importância da brincadeira na vida cotidiana, seja ela de adultos ou crianças. Como mágica, nos primeiros acordes da trilha sonora os quatro pacientes da enfermaria masculina e suas duas acompanhantes (mais os profissionais de saúde) entraram no clima do filme, prestando muita atenção ao que era dito na tela. A cada fala ou inserção sonora, ouvidos e olhos atentos (de pacientes e profissionais) iam pouco a pouco se comovendo com a proposta do documentário, que era a mais simples e, portanto, genial :convidar a uma viagem pelo território sagrado da infância, convocando nossas memórias de brincadeiras, sensações e sonhos. Assim na tela como na enfermaria uma vez que concordemos em mergulhar nas crianças que fomos, sobra espaço para a emoção e as histórias, como que por encantamento, vão surgindo uma após a outra. No fim do filme, como sempre faço, pergunto aos pacientes se preferiram a animação ou o documentário. O documentário, é voz geral. Um e outro vão lembrando das brincadeiras de infância, dos jogos que não fazem mais (por cansaço, idade ou impossibilidade física). Um dos pacientes, que não tem uma das pernas, lembra das festas juninas de antigamente, quando era o último a sair da rua, aplaudido pelos amigos. Hoje a memória de quem o viu dançar doi, prefere não ir à festa, nem tomar conhecimento. Enquanto falo que ele ainda pode ir à festa, ele lembra que hoje em dia a insegurança das ruas impossibilita a todos participar de festas como antes. Lembro que ele ainda tem as memórias, que são suas e que pode visitá-las sempre que quiser. Ele sorri, me olha e concorda: é verdade! Tenho sim! Ao final, como sempre acontece, saímos do encontro com nossas almas sempre mais leves, um tanto quanto melancólicos mas, indiscutivelmente mais sensíveis e com um breve sorriso no rosto. O papel do cinema nesse caso é abrir as portas às nossas lembranças mais profundas, territorializar nossa infância em imagens, sons e cheiros e então, quando nos damos conta, voltamos a ser as crianças de antes, reconhecendo-as no fundo de nossos olhos. Epílogo:Quando falamos do projeto e sua periodicidade(semanal), um dos pacientes,sorriso no rosto, disse: -"não pode ser todo dia,não?"
Assim começa a sessão de cinema do HU. Dessa vez a proposta foi apresentada pela equipe de assistência social do HU, que pensou trazer diversão aos pacientes. O que eles talvez não soubessem é que a experiência do cinema foi muito além de distração e entretenimento. Por ser um projeto específico do serviço social, a sessão contou com a organização da “sala”, feita com o deslocamento dos pacientes para que pudessem ficar mais próximos da tela. Também tivemos a sorte de um dia mais escuro, o que torna a (quase sempre iluminada) enfermaria do HU uma sala de projeção mais de acordo com o convencional. A partir do momento em que os pacientes foram deslocados, em seus rostos já transparecia a expectativa pelo que se ia passar. Inicialmente seriam exibidos dois curta-metragem de animação mas, como um deles apresentou problemas de áudio, optei por exibir o sempre maravilhoso Tarja Branca que, para quem ainda não conhece, trata da importância da brincadeira na vida cotidiana, seja ela de adultos ou crianças. Como mágica, nos primeiros acordes da trilha sonora os quatro pacientes da enfermaria masculina e suas duas acompanhantes (mais os profissionais de saúde) entraram no clima do filme, prestando muita atenção ao que era dito na tela. A cada fala ou inserção sonora, ouvidos e olhos atentos (de pacientes e profissionais) iam pouco a pouco se comovendo com a proposta do documentário, que era a mais simples e, portanto, genial :convidar a uma viagem pelo território sagrado da infância, convocando nossas memórias de brincadeiras, sensações e sonhos. Assim na tela como na enfermaria uma vez que concordemos em mergulhar nas crianças que fomos, sobra espaço para a emoção e as histórias, como que por encantamento, vão surgindo uma após a outra. No fim do filme, como sempre faço, pergunto aos pacientes se preferiram a animação ou o documentário. O documentário, é voz geral. Um e outro vão lembrando das brincadeiras de infância, dos jogos que não fazem mais (por cansaço, idade ou impossibilidade física). Um dos pacientes, que não tem uma das pernas, lembra das festas juninas de antigamente, quando era o último a sair da rua, aplaudido pelos amigos. Hoje a memória de quem o viu dançar doi, prefere não ir à festa, nem tomar conhecimento. Enquanto falo que ele ainda pode ir à festa, ele lembra que hoje em dia a insegurança das ruas impossibilita a todos participar de festas como antes. Lembro que ele ainda tem as memórias, que são suas e que pode visitá-las sempre que quiser. Ele sorri, me olha e concorda: é verdade! Tenho sim! Ao final, como sempre acontece, saímos do encontro com nossas almas sempre mais leves, um tanto quanto melancólicos mas, indiscutivelmente mais sensíveis e com um breve sorriso no rosto. O papel do cinema nesse caso é abrir as portas às nossas lembranças mais profundas, territorializar nossa infância em imagens, sons e cheiros e então, quando nos damos conta, voltamos a ser as crianças de antes, reconhecendo-as no fundo de nossos olhos. Epílogo:Quando falamos do projeto e sua periodicidade(semanal), um dos pacientes,sorriso no rosto, disse: -"não pode ser todo dia,não?"
sábado, 17 de setembro de 2016
Meu bem, não chore! Hoje tem filme de Carlitos! Enfermaria C-IPPMG-16/09/16
Na volta das férias, me deparo com uma enfermaria cheia de crianças, todos meninos entre 3 a 8 anos. Proponho a exibição, como sempre fazemos e recebo em troca gritos de “oba, cinema”, “cinema, Cinema, hoje é dia de cinema”,que me deixam muito feliz. Enquanto apresento o cardápio dos filmes a serem exibidos, percebo um menino,dos seus três anos, se aproximar:
-Tia, passa meu filme?
Pergunto qual é o filme. Ele diz,orgulhoso:Patati-Patatá!
Por regra, não exibimos filmes conhecidos, pois o objetivo do projeto é apresentar narrativas e estéticas desconhecidas que, justamente por isso, convidem as crianças a novas experiências com os filmes. Contudo, é preciso negociar e combino com meu mais novo amigo, Marcelo, que sim, passarei um pequeno trecho do filme. Assim, ganho mais um espectador para a exibição, mesmo que sua assistência seja a bordo de um velocípede, com o qual anda por entre as camas, aparelhos e enfermeiras. Logo tenho quatro meninos assistindo ao filme, sentados nas camas, mais Marcelo, que pedala ali por perto e Tiago, que, em vez de assistir à projeção na cortina, prefere se sentar no chão e assistir sozinho, bem perto do computador. O sucesso foi tanto que conseguiu mobilizar até um menino de outra enfermaria, que veio caminhando devagar, bastante debilitado. Enquanto os profissionais de saúde se revezavam no atendimento, tentando não atrapalhar a projeção, a equipe de limpeza aguardava para lavar a enfermaria, um dos meninos era retirado de maca para um exame e o pessoal da logística trazia duas enormes cadeiras de acompanhante, os filmes prosseguiam. Nada além do caos normal.Em cartaz “Caçada ao Saci, “A sombra de Sofia” e “Três Avós”. Estamos no terceiro filme e, enquanto garanto a Marcelo que seu filme será exibido, me dou conta de que um dos meninos, justamente o que estava do outro lado da enfermaria, não veio assistir o filme. Pergunto porque.A mãe me explica que ele está com a imunidade baixa e não pode se aproximar muito das outras crianças. Imediatamente levo o cardápio para ele e me comprometo a levar o projetor para lá, mesmo que isso inclua uma delicada cirurgia no blackout da enfermaria para juntar as partes rasgadas e construir uma tela minimamente decente. Assim foi feito. Filmes exibidos, coloco o DVD de Marcelo e instantaneamente ele começa a dançar e cantar. Vê-lo me faz acreditar ainda mais na potência da relação afetiva com os filmes e como a experiência com a imagem em movimento convoca nossos corpos e sentimentos. Para ele (e para muitos) a imagem deve ser algo conhecido e trazer familiaridade, conforto, remetendo a emoções já vivenciadas antes. Ocorre que o cinema precisa também causar o desconforto,dialogando com o inesperado. E para isso estamos lá. Assim, enquanto fazia o menino aguardar pelo seu filme, de uma forma ou de outra consegui fazê-lo assistir três filmes desconhecidos, imagens que vão se gravar de alguma forma em sua imaginação, germinando novas sementes de olhares e afetos.. Levo então o projetor para o outro lado. Vejo no gesto,no rosto do menino,a alegria de estar incluído na experiência do cinema..Vemos o filme do Saci.Comento sobre Monteiro Lobato e quanto da figura do Saci devemos ao escritor. Imediatamente se estabelece um debate, entre crianças e adultos, sobre nossos personagens preferidos. de repente estamos sentados,lado a lado,em plena sala estar de dona benta, junto a seus netos,ouvindo as malcriações da Emilia e as filosofias do visconde...e a tela do cinema, recém desligada, expandiu-se na memória e nos afetos de todos nós,fazendo-se então coletiva.
sexta-feira, 22 de julho de 2016
Cinema expandido, afetivo e de lágrimas.
Territórios sensíveis- Enfermaria C-22/07/16
Entrar em um hospital pediátrico, como podem imaginar todos aqueles que, como eu, não pertencem ao universo da saúde, é sempre muito. Torna-se fundamental carregar, bem junto de si, uma dose extra de coragem e outra igual de fé. Sendo assim, uma das primeiras lições que me deram foi de procurar não me apegar em demasia aos pacientes, sob risco de sofrer junto com eles e dessa forma, inviabilizar meu trabalho na enfermaria. Hoje, um ano depois, devo dizer que falhei miseravelmente na função. Desde a primeira entrada, na enfermaria das crianças com câncer, foi impossível não me sensibilizar com cada rosto, com seus olhos, inquietos e curiosos, ou suas mãos, empenhadas em interferir na projeção ou adivinhar alguma emoção diferente no meu rosto, tentando detectar medo ou enfado. Quase sempre consegui refrear meu instinto de sair correndo, cada vez que via uma criança chorar de dor ou ser submetida a um tratamento doloroso. Para piorar a situação, tenho uma aversão profunda (que beira o mal estar) a sangue e em alguns dias busquei na projeção um ponto fixo para tentar ignorar o que ocorria no hospital, procedimentos rotineiros para qualquer um que trabalhe lá, menos para mim, obviamente. Nesses primeiros dias, me lembro vivamente de uma menina, linda em seus 11 anos, que me olhou nos olhos e me disse,com tranquilidade: “Minha doença não tem cura”.Mantive o rosto tranquilo e continuei a conversar com ela, mas , ao chegar em casa, precisei ficar por algumas horas no mais completo silêncio, digerindo com dificuldade a profundidade do que ela me dissera. E então veio o contato com Kauã. Nem nos meus sonhos mais loucos eu sonharia conhecer no hospital uma figura tão forte e tão diferente quanto meu pequeno cineasta. Vindo já de um longo período de atividades com a equipe do CINEAD, a presença do cinema para ele já era algo rotineiro. Portanto, minha presença lá não era de modo algum diferente do que ele já vivia rotineiramente. A transformação, violenta e profunda, ocorreu em mim.Apesar de conviver com crianças da idade dele, eu nunca conhecera uma com uma capacidade imaginativa tão grande e um universo tão expandido, principalmente dadas as condições em que ele passava seus dias. Em pouco mais de 2 metros quadrados, todas as paredes do seu leito eram cobertas de desenhos, bonecos de dinossauros (seus preferidos) e, mais recentemente, figuras do jogo Minecraft. Naquele pequeno espaço ele jogava, desenhava, assistia a filmes, lutava contra monstros, atravessava pântanos e fugia de dinossauros. Foi ali que comecei a acompanhar suas aventuras e me surpreendi com a sua capacidade de contar histórias. Nada parecia ser novo para ele, que conseguia compreender todos os elementos do cinema (roteiro, direção, elenco, arte, cortes) quase sem que precisássemos explicar. E não de qualquer tipo de cinema, mas dos grandiosos,espetaculares, em que seu filme era exibido para multidões e a história tinha milhares de efeitos visuais. Não era necessário, contudo, muita coisa para que ele criasse suas histórias. Precisávamos apenas dar-lhe a deixa e ele se erguia de um salto, criando universos pela ponta dos seus dedos, nos explicando detalhadamente como seria cada coisa. E voava, ultrapassando as barreiras de sua condição física. A única coisa que conseguia interromper seu voo era ser obrigado a passar por algum procedimento invasivo. Ali, o mesmo sujeito expansivo, cheio de ideias, sorridente,voltava a seu tamanho normal e sua imaginação infinita retornava ao seu corpo franzino. Em muitas vezes assisti a esses processos, em que o menino se encolhia em seu leito e nada o fazia sair de lá. Nesse momento, respeitávamos seu silêncio e recolhíamos o material. Nas últimas semanas tive a sorte de encontrar-lhe no ápice de sua energia, quando aceitou fazermos mais um filme dele, com direito a elenco e figurino. Foi incrível vê-lo atuar, dirigir, roteirizar, marcar o elenco e pensar em efeitos visuais, “tudoaomesmotempoagora”. Desse dia, a imagem que ficou gravada na memória foi dele, em pé na cama, olhando para a janela e me dizendo que queria filmar uma história do homem aranha, para poder escalar os muros do hospital. Imediatamente me peguei rezando para que ele criasse super poderes e voasse imediatamente dali. Vídeo gravado chego hoje no hospital, laptop em punho, para editar o filme com ele. Já o imaginava sentado ao meu lado determinando cada detalhe do filme e opinando em cada coisa, como era bem o seu jeito. Passei pela enfermaria, não reconheci o leito, caminhei por todas as salas, até ter coragem de entrar na dele e perguntar: onde está o Kauã?O breve intervalo entre pergunta e resposta foram para mim extremamente dolorosos. E então recebo a maravilhosa notícia de que ele fora transferido para um hospital em outro estado, para tentar um transplante de medula. Enquanto eu tentava absorver essa novidade inacreditável, imagens da última gravação passavam pela minha cabeça,junto com a lembrança de seu desejo de voar. Nessa hora,em que eu tentava inutilmente lidar com as lágrimas, percebi o quanto eu fora afetada pela convivência com Kauã, por suas intervenções e observações essenciais,suas histórias maravilhosas e seu desejo de ir além dos muros, no espaço físico do hospital.Pude então entender, na carne, a ideia de experiência sensível, que não afasta campo e pesquisador.Em cada momento da minha vida eu levava a experiência com Kauã,fazendo-me crer na importância do cinema e na necessidade de sua expansão, muito mais do que apenas um dispositivo técnico, mas essencialmente afetivo. Para poder compreender isso, foi necessário mergulhar, sofrer e me sensibilizar com o cotidiano das crianças no hospital e me apaixonar profundamente pela pessoa incrível que me mostrou infinitas maneiras de expandir o cinema (e a mim mesma), para múltiplas mídias e diversas linguagens e formas. Foi necessário principalmente me posicionar como pessoa, muito mais do que como pesquisadora, deixando que o corpus me escolhesse, em vez do contrário. Nesse percurso, hipótese, métodos, recorte, tudo foi varrido pela profusão de lágrimas que me toma nesse momento. Ante o devastador efeito do afeto, não há teoria que dê conta da vida.
Entrar em um hospital pediátrico, como podem imaginar todos aqueles que, como eu, não pertencem ao universo da saúde, é sempre muito. Torna-se fundamental carregar, bem junto de si, uma dose extra de coragem e outra igual de fé. Sendo assim, uma das primeiras lições que me deram foi de procurar não me apegar em demasia aos pacientes, sob risco de sofrer junto com eles e dessa forma, inviabilizar meu trabalho na enfermaria. Hoje, um ano depois, devo dizer que falhei miseravelmente na função. Desde a primeira entrada, na enfermaria das crianças com câncer, foi impossível não me sensibilizar com cada rosto, com seus olhos, inquietos e curiosos, ou suas mãos, empenhadas em interferir na projeção ou adivinhar alguma emoção diferente no meu rosto, tentando detectar medo ou enfado. Quase sempre consegui refrear meu instinto de sair correndo, cada vez que via uma criança chorar de dor ou ser submetida a um tratamento doloroso. Para piorar a situação, tenho uma aversão profunda (que beira o mal estar) a sangue e em alguns dias busquei na projeção um ponto fixo para tentar ignorar o que ocorria no hospital, procedimentos rotineiros para qualquer um que trabalhe lá, menos para mim, obviamente. Nesses primeiros dias, me lembro vivamente de uma menina, linda em seus 11 anos, que me olhou nos olhos e me disse,com tranquilidade: “Minha doença não tem cura”.Mantive o rosto tranquilo e continuei a conversar com ela, mas , ao chegar em casa, precisei ficar por algumas horas no mais completo silêncio, digerindo com dificuldade a profundidade do que ela me dissera. E então veio o contato com Kauã. Nem nos meus sonhos mais loucos eu sonharia conhecer no hospital uma figura tão forte e tão diferente quanto meu pequeno cineasta. Vindo já de um longo período de atividades com a equipe do CINEAD, a presença do cinema para ele já era algo rotineiro. Portanto, minha presença lá não era de modo algum diferente do que ele já vivia rotineiramente. A transformação, violenta e profunda, ocorreu em mim.Apesar de conviver com crianças da idade dele, eu nunca conhecera uma com uma capacidade imaginativa tão grande e um universo tão expandido, principalmente dadas as condições em que ele passava seus dias. Em pouco mais de 2 metros quadrados, todas as paredes do seu leito eram cobertas de desenhos, bonecos de dinossauros (seus preferidos) e, mais recentemente, figuras do jogo Minecraft. Naquele pequeno espaço ele jogava, desenhava, assistia a filmes, lutava contra monstros, atravessava pântanos e fugia de dinossauros. Foi ali que comecei a acompanhar suas aventuras e me surpreendi com a sua capacidade de contar histórias. Nada parecia ser novo para ele, que conseguia compreender todos os elementos do cinema (roteiro, direção, elenco, arte, cortes) quase sem que precisássemos explicar. E não de qualquer tipo de cinema, mas dos grandiosos,espetaculares, em que seu filme era exibido para multidões e a história tinha milhares de efeitos visuais. Não era necessário, contudo, muita coisa para que ele criasse suas histórias. Precisávamos apenas dar-lhe a deixa e ele se erguia de um salto, criando universos pela ponta dos seus dedos, nos explicando detalhadamente como seria cada coisa. E voava, ultrapassando as barreiras de sua condição física. A única coisa que conseguia interromper seu voo era ser obrigado a passar por algum procedimento invasivo. Ali, o mesmo sujeito expansivo, cheio de ideias, sorridente,voltava a seu tamanho normal e sua imaginação infinita retornava ao seu corpo franzino. Em muitas vezes assisti a esses processos, em que o menino se encolhia em seu leito e nada o fazia sair de lá. Nesse momento, respeitávamos seu silêncio e recolhíamos o material. Nas últimas semanas tive a sorte de encontrar-lhe no ápice de sua energia, quando aceitou fazermos mais um filme dele, com direito a elenco e figurino. Foi incrível vê-lo atuar, dirigir, roteirizar, marcar o elenco e pensar em efeitos visuais, “tudoaomesmotempoagora”. Desse dia, a imagem que ficou gravada na memória foi dele, em pé na cama, olhando para a janela e me dizendo que queria filmar uma história do homem aranha, para poder escalar os muros do hospital. Imediatamente me peguei rezando para que ele criasse super poderes e voasse imediatamente dali. Vídeo gravado chego hoje no hospital, laptop em punho, para editar o filme com ele. Já o imaginava sentado ao meu lado determinando cada detalhe do filme e opinando em cada coisa, como era bem o seu jeito. Passei pela enfermaria, não reconheci o leito, caminhei por todas as salas, até ter coragem de entrar na dele e perguntar: onde está o Kauã?O breve intervalo entre pergunta e resposta foram para mim extremamente dolorosos. E então recebo a maravilhosa notícia de que ele fora transferido para um hospital em outro estado, para tentar um transplante de medula. Enquanto eu tentava absorver essa novidade inacreditável, imagens da última gravação passavam pela minha cabeça,junto com a lembrança de seu desejo de voar. Nessa hora,em que eu tentava inutilmente lidar com as lágrimas, percebi o quanto eu fora afetada pela convivência com Kauã, por suas intervenções e observações essenciais,suas histórias maravilhosas e seu desejo de ir além dos muros, no espaço físico do hospital.Pude então entender, na carne, a ideia de experiência sensível, que não afasta campo e pesquisador.Em cada momento da minha vida eu levava a experiência com Kauã,fazendo-me crer na importância do cinema e na necessidade de sua expansão, muito mais do que apenas um dispositivo técnico, mas essencialmente afetivo. Para poder compreender isso, foi necessário mergulhar, sofrer e me sensibilizar com o cotidiano das crianças no hospital e me apaixonar profundamente pela pessoa incrível que me mostrou infinitas maneiras de expandir o cinema (e a mim mesma), para múltiplas mídias e diversas linguagens e formas. Foi necessário principalmente me posicionar como pessoa, muito mais do que como pesquisadora, deixando que o corpus me escolhesse, em vez do contrário. Nesse percurso, hipótese, métodos, recorte, tudo foi varrido pela profusão de lágrimas que me toma nesse momento. Ante o devastador efeito do afeto, não há teoria que dê conta da vida.
terça-feira, 19 de julho de 2016
Reiventando velhos truques na cartola do cinema
Territórios Sensíveis-28/06/16- Cinema no HU
Se há uma palavra que define de modo preciso a experiência do cinema no hospital ela é: imprevisível. Portanto, para adentrar uma enfermaria é preciso ter algumas cartas na manga.De preferência,várias.Ocorre que hoje,infelizmente,eu não tinha. Cheguei então com apenas um pendrive no bolso e a crença de que tudo funcionaria bem. Só não contava com a alta de dois pacientes logo na minha entrada,justamente na única enfermaria disponibilizada pela equipe de enfermagem. Como os dois pacientes manifestaram vontade de assistir aos filmes, me dispus a exibir um curta de animação, Tolerância. A recepção foi maravilhosa e até quem disse que não tinha vontade de assistir filmes parou para ver e comentar. No final, com os pacientes entusiasmados, falamos um pouco de técnicas de animação e então um dos meninos que aguardava a liberação de sua saída me lançou a seguinte pergunta: “Não tem mais não?”Ora, eu não contava com tal pergunta, pois havia me preparado para a exibição de uma longa metragem e tinha como plano B apenas os quatro míseros minutos do curta e mais nada!Então, ansiosamente, comecei a buscar algo no acervo do CINEAD e me deparei com cinco fragmentos do maravilhoso Mèliés, alguns, devo dizer bastante e compreensivelmente deteriorados. Qual não foi minha surpresa ao ver que não somente o menino adorou o filme, como pediu mais.E outro.E mais outro. E ainda um. E, no final,quando só me restava apenas um filme na manga, ele me disse:”Puxa,que pena!Adorei”Aproveitei o gancho e comentei sobre os processos criativos de Mèliés, da mise-em-scene, as trucagens, o stop motion.O menino, empolgado, pediu mais filmes parecidos para ver em casa e agradeceu muito as informações. Saí do hospital pensando sobre como a experiência do cinema pode ser tão imprevisível que, quando menos esperamos, a magia acontece, à nossa revelia, sem que tenhamos absolutamente nada a ver com o que ocorreu. De repente, olhos grudados na tela, o rosto mais impassível é tocado pela superfície porosa da imagem, por suas ranhuras, seu silêncio entre planos, pelo que falta ou excede na história. Se ficarmos bem atentos é possível perceber em cada músculo do rosto a transformação que se espalha pela pele,quando o sentido do filme se faz e se torna,inevitavelmente, encantamento.
sexta-feira, 8 de julho de 2016
A incrível batalha de Kaua Craft contra o Malvado Helobrine ou:de quantas formas é possível voar?
Hoje é dia de filmagem?É sim, senhor. Como fazer então, se não há roteiro, técnico ou literário?Para nosso pequeno cineasta, isso não é problema. Assim que chego no hospital ele saca do lápis e rabisca sete planos (deveriam ser cinco,mas ele quis alguns a mais) e ainda pensa numa cena final, pós-créditos. Bem no esquema dos Avengers. Só que nesse caso, estamos falando do universo quadrado do Minecraft, amado por 20 entre 10 meninos por aí. E é nesse universo onde assistimos a criação da história de Steve e Kaua Craft, ali mesmo, na hora. Planos, enquadramento, mise-en-scene, tudo é acertado no calor das filmagens, enquanto o elenco, pacientemente, aguarda sua vez de entrar.
Muito em segredo, o diretor confessa que tinha vontade de fazer o papel do Homem Aranha, para poder escalar as paredes do hospital, fazendo essa pobre assistente de direção sorrir pela primeira entre muitas, durante a gravação. Roteiro escrito, atores prontos, ops, não, antes o diretor teve um momento estrela, reclamando que a cenografia não havia trazido o boneco do porco como deveria e que o figurino do ator não estava de acordo com a palheta de cores determinada por ele.Ou seja, a direção de arte errara feio.Ante nossas desculpas, ele se convenceu de que seria melhor filmar com o que tínhamos e nos fez prometer que o próximo episódio da série(porque afinal de contas seu filme seria o longa metragem de uma série) haveria o que chamou de hologramas, com efeitos visuais que simulassem os ambientes do jogo.Não pegava bem afinal que o super Kaua Craft, detentor da poderosa espada de diamante, estivesse ali, num mero hospital. Convencido de que faríamos o possível para que suas demandas fossem atendidas, ele pediu a cadeira de diretor, ajustou a altura da câmera, determinou a entrada dos atores e correu para atuar, porque não basta ser diretor e roteirista, queria estar em cena também.
Sempre é bom lembrar que nosso pequeno cineasta está preso 24 horas por dia a um aparelho que o alimenta e, consequentemente, o mantém vivo. Quando o movemos para que possa chegar até o local de filmagem, inclusive, o equipamento apita, ruidosamente. É nosso diretor que mexe nos inúmeros botões da máquina e a silencia, sem deixar de prestar atenção por nem um segundo ao que se passa no set. Uma vez na marcação, ele se vira para mim e diz: “Luz, câmera,ação!” Seus atores, contudo, não sabem quais suas falas!Ele não se perturba. - Improvisem,ele diz! Em um minuto gravamos quase todas as cenas, menos uma, a da entrada da personagem arqueira. Só há um problema: não há um arco na enfermaria. Sem se abalar o diretor-roteirista-ator se torna um produtor de objetos, transformando sua espada em um arco bem razoável. Todos a postos novamente, ele se posiciona próximo a claquete, e diz:-gravando! É incrível como seu corpo franzino se agiganta enquanto está de frente para as câmeras. Ele se torna, em segundos personagem e diretor, determina a ação, comanda tudo!E temos então, mais uma cena gravada. Agora é hora de combinar os detalhes da edição, mas antes de tudo o diretor quer ver o material bruto gravado e reclama bastante do som. Deixamos claro que é apenas efeito da câmera e então, enquanto ele viaja por outras histórias, uma das enfermeiras pede para coletar seu sangue. Automaticamente o diretor se torna menino e o menino se torna paciente, que vai sentar muito quietinho ali na cadeira, enquanto se faz o procedimento solicitado. Depois de finalizada a coleta de sangue ele cansa, não quer mais brincar, pede que o levemos de volta para o leito. Ante tantos papeis desempenhados, não poderia ser diferente mesmo. O diretor se recolheu aos seus aposentos, aos seus jogos, a seu mundo colorido. O que ele talvez não saiba é o quanto coloriu o nosso mundo, todos nós que participamos da filmagem, no momento em que permitiu que compartilhássemos suas fantasias. Enquanto caminhávamos pelo corredor, já na saída, pude perceber que nossas capas de heróis continuavam ali, permitindo-nos, por alguns momentos, voar junto com ele.
sábado, 2 de julho de 2016
No território sagrado da infância
Territórios Sensíveis- Reunião mensal Hanseníase-13/06/16.HU
Com o prosseguimento das atividades no Hospital universitário, fui convidada a participar de uma reunião dos pacientes de Hanseníase. A ideia era sensibilizá-los para a questão do cuidado de si. Então escolhi,através da maravilhosa plataforma Videocamp,o filme Tarja Branca.Para quem não conhece, o filme pensa sobre a importância do ato de brincar,para a formação de crianças e adultos (sim,adultos) , mais conectados com sua essência e, definitivamente mais felizes. O filme segue o manual dos documentários mais comuns, com entrevistas entrecortadas por imagens.O que o diferencia,além da cuidadosa direção de fotografia, é que ele mergulha de cabeça no território sagrado da infância, resgatando nossas memórias mais profundas,algumas dolorosas e outras profundamente felizes,mas todas inesquecíveis. Até a última meia hora do filme os pacientes acompanhavam com algum interesse, mas um pouco dispersos. Devido ao tempo curto,fiz um corte até os últimos 20 minutos, onde a temática se alterna.Em vez da importância da brincadeira no horizonte das crianças, fala-se de como é essencial conservar,na vida adulta, a capacidade de brincar. E então todos os entrevistados falam,emocionadamente, das crianças que foram e ainda são E das imagens que guardam da infância. O que diriam essas crianças,para os adultos que eles são hoje?É aí que a emoção fala mais alto, os olhos brilham e os rostos se contraem,tentando segurar o choro. Por vezes,é uma tarefa impossível de se executar.Então vemos meninos e meninas,em seus 40,50 e 60 anos, transformados,pela simples lembrança das crianças que foram e ainda são.Assim também foi na sala do H.U. Ao final do filme, muitos estavam emocionados .Outros sorriam sem parar e outros ainda,tinham o olhar perdido na infância que tinham acabado de revisitar. A todos propus que voltássemos em nossas memórias e contássemos do que mais gostássemos de brincar.Assim foi.Em um relato coletivo,cada um de nos contou aquilo que mais nos fazia feliz e foi com muita alegria que reconhecemos no relato do outro aquilo que também nos dava prazer em brincar. Em pouco tempo um grande falatório se iniciou. Enquanto trocávamos impressões e relatos, nossas memórias se tornavam coletivas,compartilhadas no breve espaço da sala. E então perguntei, finalmente,se brincávamos ainda do que mais nos fazia feliz quando éramos meninos. Percebi que muitos de nós usávamos de estratégias para continuar a brincadeira,perpetuando-a em nossos filhos e netos, na desculpa do lazer ou do esporte. No fundo,nosso objetivo não era nenhum outro além de continuarmos a manter ao nosso lado, por todo o tempo que fosse possível,os meninos que éramos, correndo descalços pelo quintal,afundando nossos pés na areia fria da praia,sentindo a onda bater em nossas pernas ou buscando as bolhas de sabão que criávamos,apenas porque são belas e nos faziam felizes. Emocionada, a organizadora do evento,como muitos,perdera a voz em algum lugar de sua memória,e quase não conseguia falar. É incrível como a infância nos fragiliza quando a deixamos de lado e como pode, ao mesmo tempo, nos fortalecer, quando a usamos como potência para sermos os adultos que buscáramos ser há muito tempo atrás. É na curiosidade e sensibilidade infantil que deveríamos todos manter nossos pés firmemente plantados,para não esquecermos nunca da responsabilidade de ver o mundo com olhos de criança,em constante aprendizado e igual encantamento.
Trilha sonora do texto: Nuages. Dreamns
Com o prosseguimento das atividades no Hospital universitário, fui convidada a participar de uma reunião dos pacientes de Hanseníase. A ideia era sensibilizá-los para a questão do cuidado de si. Então escolhi,através da maravilhosa plataforma Videocamp,o filme Tarja Branca.Para quem não conhece, o filme pensa sobre a importância do ato de brincar,para a formação de crianças e adultos (sim,adultos) , mais conectados com sua essência e, definitivamente mais felizes. O filme segue o manual dos documentários mais comuns, com entrevistas entrecortadas por imagens.O que o diferencia,além da cuidadosa direção de fotografia, é que ele mergulha de cabeça no território sagrado da infância, resgatando nossas memórias mais profundas,algumas dolorosas e outras profundamente felizes,mas todas inesquecíveis. Até a última meia hora do filme os pacientes acompanhavam com algum interesse, mas um pouco dispersos. Devido ao tempo curto,fiz um corte até os últimos 20 minutos, onde a temática se alterna.Em vez da importância da brincadeira no horizonte das crianças, fala-se de como é essencial conservar,na vida adulta, a capacidade de brincar. E então todos os entrevistados falam,emocionadamente, das crianças que foram e ainda são E das imagens que guardam da infância. O que diriam essas crianças,para os adultos que eles são hoje?É aí que a emoção fala mais alto, os olhos brilham e os rostos se contraem,tentando segurar o choro. Por vezes,é uma tarefa impossível de se executar.Então vemos meninos e meninas,em seus 40,50 e 60 anos, transformados,pela simples lembrança das crianças que foram e ainda são.Assim também foi na sala do H.U. Ao final do filme, muitos estavam emocionados .Outros sorriam sem parar e outros ainda,tinham o olhar perdido na infância que tinham acabado de revisitar. A todos propus que voltássemos em nossas memórias e contássemos do que mais gostássemos de brincar.Assim foi.Em um relato coletivo,cada um de nos contou aquilo que mais nos fazia feliz e foi com muita alegria que reconhecemos no relato do outro aquilo que também nos dava prazer em brincar. Em pouco tempo um grande falatório se iniciou. Enquanto trocávamos impressões e relatos, nossas memórias se tornavam coletivas,compartilhadas no breve espaço da sala. E então perguntei, finalmente,se brincávamos ainda do que mais nos fazia feliz quando éramos meninos. Percebi que muitos de nós usávamos de estratégias para continuar a brincadeira,perpetuando-a em nossos filhos e netos, na desculpa do lazer ou do esporte. No fundo,nosso objetivo não era nenhum outro além de continuarmos a manter ao nosso lado, por todo o tempo que fosse possível,os meninos que éramos, correndo descalços pelo quintal,afundando nossos pés na areia fria da praia,sentindo a onda bater em nossas pernas ou buscando as bolhas de sabão que criávamos,apenas porque são belas e nos faziam felizes. Emocionada, a organizadora do evento,como muitos,perdera a voz em algum lugar de sua memória,e quase não conseguia falar. É incrível como a infância nos fragiliza quando a deixamos de lado e como pode, ao mesmo tempo, nos fortalecer, quando a usamos como potência para sermos os adultos que buscáramos ser há muito tempo atrás. É na curiosidade e sensibilidade infantil que deveríamos todos manter nossos pés firmemente plantados,para não esquecermos nunca da responsabilidade de ver o mundo com olhos de criança,em constante aprendizado e igual encantamento.
Trilha sonora do texto: Nuages. Dreamns
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