terça-feira, 7 de junho de 2016
O dia em que não teve filme
Territórios sensíveis-Maio de 2015. Escolas ocupadas.Meier.
Aos que pensamos que as artes e, principalmente, o cinema, são ferramentas de transformação social, concluir que, por vezes, a arte não dá conta de transmutar a realidade pode ser uma dura constatação. Em algumas situações, não basta termos a ferramenta estética no sentido da fruição. É preciso recuar e chegar ao nível da necessidade básica, posto que, quando estas não são satisfeitas,é impossível transcender o real.
Essa foi a situação encontrada na escola ocupada que visitamos, menos para exibição de filmes do que para ajudar os meninos que ali estavam. Na véspera,o governo havia cortado o repasse de passagem para os alunos e muitos não podiam comparecer às escolas.Havia falta de água e ,em alguns casos,até luz.O grupo se dividia na imensa escola entre cortar grama,varrer, organizar o pátio e cozinhar. Havia muito que fazer e o abandono da escola era evidente, assim como o empenho de alunos e professores com a recuperação do espaço. Ocorre que um coletivo de pessoas é um coletivo de pessoas.Há quem mande, quem assuma todas as tarefas,quem enrole e quem literalmente não faça nada. Enquanto tento cozinhar três quilos de arroz observo os meninos, em constante negociação e trabalho e penso na importância do cinema em um ambiente como aquele. Naquele momento a arte não faz a menor diferença, para quem precisa decidir se tenta resolver o problema da água ou da comida. Estar junto com os alunos então não se resume a ajudar na organização dos trabalhos, suscitar consciência critica sensibilizá-los e trazer referências estéticas. Não!Definitivamente estar junto significa varrer o chão, mexer o arroz, aparar a grama, trazer um bolo, ouvir a mesma música e rir das mesmas piadas. Quando tudo é escassez, a experiência estética não é complementar ao cotidiano, ela se torna o cotidiano, na medida em que nossos sentidos e sensibilidades devem estar em consonância com o outro, amparando-o em suas necessidades para que possa,o mais rápido possível,voltar a sonhar.
quarta-feira, 27 de abril de 2016
Territórios sensíveis-ocupar é resistir.
Varrer o chão. Abrir a janela. Dobrar as cobertas.Preparar o café.Arrumar a sala.Passar a chave na porta. Gerenciar os mantimentos. Organizar os livros. Estudar. Bater papo com os amigos.Jogar bola. Essa e outras inúmeras coisas, das que preenchem todas as horas do dia e compõem aquilo que chamamos cotidiano. Essas e outras inúmeras coisas que compõem o cotidiano de uma escola sem muros,uma escola ocupada. Logo na entrada, há o controle de entrada e saída. Não se enganem, não há seguranças contratados.Os próprios alunos controlam quem entra e sai, em um sistema extremamente organizado,principalmente para quem conhece os hábitos de adolescentes. São todos muito jovens e todos têm uma função e sabem da função do outro e à qual equipe pertence. Sim, são muitos, da limpeza à comissão de atividades, passando pela comunicação. Nesses microcosmos adentramos para mais uma sessão de cineclube. Como em qualquer lugar, há que se construir o cenário, ou seja, a sala de exibição e debate. Para isso, será preciso localizar os equipamentos, o projetor e um lugar que comporte todos eles. E por mais que alguns lugares da escola estejam com móveis e equipamentos que dificultam a passagem eles, os alunos, sabem onde está cada coisa.São os donos legítimos do lugar e para entrar em cada escola é preciso que se saiba que ali os donos da casa são eles.Sua legitimidade reside no sentido do pertencimento, pois aquele chão que pisam é o mesmo onde habitam todos os dias, que limpam diariamente, onde alguns dormem e onde se reúnem as vezes. Em cada gesto sobressai o carinho e responsabilidade com que cuidam de toda a organização, com que debatem continuamente para que ninguém se aproveite do trabalho alheio e para que nada fique fora do lugar. Os professores, quando há, dão o apoio e segurança necessários, mas o protagonismo é todo deles. Não pensem que não há balburdia, que não fazem barulho, maravilhosamente fazem. Gritam às vezes,dançam no pátio, perseguem uns aos outros, eles só têm 15 anos, afinal. Mas essa é só a menor parte de um cotidiano permeado de responsabilidades. E em cada rosto não é preciso que se fale para que possamos perceber o quanto amadurecem na experiência que vivenciam. Da nossa parte cabe montar o cenário, ajudar a montar o DVD, a forrar as janelas,arrumar as cadeiras. E esperá-los chegar. Vão entrando na sala aos poucos, sentam,se agrupam,procuram um bom lugar. Como em todos os lugares nos quais faço a exibição de filmes, a experiência do cinema é algo itinerante, cheia de interrupções, conversas, risadas que poderiam incomodar o cinéfilo mais conservador. Mas, se olharmos bem, a seu modo eles estão ali, se apropriando da narrativa, comentando-a, aproveitando o espaço do cinema para construir formas bem próprias de sociabilidade, de estarem juntos. Estamos com 20 minutos do filme quando entra em sala a estrela da festa: ela, a pipoca. Sobraçando um enorme tupperware uma das alunas declara: “sem pipoca não tem cinema”, para alegria geral. E em meio a disputas pela pipoca, comentários e risadas, chegamos ao final do filme. Sentada na última cadeira da sala, penso na importância da experiência desses meninos, no quanto estão formando seu caráter e contribuindo para sua educação e a dos amigos. Educação não aquela, formal, de muros, regras e números, mas a boa, que se faz junto, cotidianamente, na apropriação do espaço e dos afetos, no lugar que se criai pelos territórios sensíveis que os meninos constroem todos os dias. E nessa educação, nós adultos estamos anos luz aquém deles, não chegamos sequer ao maternal.
quinta-feira, 21 de abril de 2016
Territórios Sensíveis- Cinema no HU-Enfermaria 9A – 33 12/04
Quando Michel Foucault falava sobre resistências e sujeições, decididamente seu olhar recaia sobre as relações entre sujeitos, atravessados por “estruturas” sociais. Não é por acaso que muitas obras foucaultianas foram permeadas do objeto hospital e suas particularidades cientificas e sociológicas. Dessa forma, pensar em laços de afeto em um ambiente hospitalar em constante modificação, cercado por rígidas rotinas e procedimentos invasivos e por corpos adoecidos é pensar definitivamente em um ato de resistência. E foi exatamente nas brechas da pesada rotina hospitalar de uma enfermaria geriátrica,que conheci Seu Moacir e Seu Augusto, dois simpáticos senhores de seus 70 anos. Assim que cheguei, logo ficou fácil perceber que Moacir era o porta-voz da enfermaria. Era ele quem se movimentava com facilidade,conversando e chamando atenção de todos que passavam. Foi ele que me perguntou sobre qual seria o filme que veríamos e pediu que passassem Os Mercenários, enquanto Seu Augusto aguardava, em silencio. O filme escolhido era A musica segundo Tom Jobim, documentário musical de 2012.Durante grande parte do filme os dois senhores conversaram sobre as exibições, as músicas,os intérpretes, sempre com grande intimidade e bom humor. Logo, Seu Moacir não aguentou e sentou-se ao meu lado.Começou a falar que adorava filmes western e se eu tinha percebido que o som estava reverberando nas paredes do hospital.Quando perguntei como ele sabia dessas coisas,me respondeu que fora técnico de som por muito tempo e me pediu que trouxesse um filme de ação.Prometi que procuraria Bonanza(Série de tv western da década de 1960-70),conforme ele pedira e traria outros filmes também.Durante todo o tempo da conversa, Seu Augusto,deitado, acompanhava o filme e cantarolava as músicas que eram executadas. A um canto da enfermaria, uma senhora cuidava do marido, depois de me dizer que não podia, infelizmente, acompanhar o filme, pois o companheiro estava muito debilitado. Enquanto isso,profissionais de saúde se revezavam na sala, sempre observando com espanto e alguma alegria a exibição do filme. Parece incrível que, em menos de um mês de internados, os dois senhores já estejam tão próximos, conversando como velhos amigos, mas é preciso compreender em que medida os dois estão em uma situação limite. Afinal, uma coisa é trabalhar ou mesmo visitar um hospital. Outra, bem diferente, é estar preso às suas rotinas por ocasião de uma enfermidade. Na ausência do cotidiano,estabelecem-se novas demandas,atendidas pelas circunstâncias mais adversas e imprevistas.À parte todas as regras, nunca se sabe quando haverá uma emergência a seu lado ou a necessidade de exame ou deslocamento.No descontrole dos corpos, a busca de afeto parece se a única saída para não se perder o rumo.E assim,caminhando um ao lado do outro,Seu Moacir e Seu Augusto resistem,bravamente,com ou apesar do cinema.Por outro lado, trazer filme para o hospital sempre é um exercício de negociação de espaços e de debates .A cada dia é necessário negociar os filmes,o tempo de exibição, a forma como serão exibidos e para quem.Em todos os dias,os pacientes conectam-se ao filme em intervalos irregulares, levantam-se,mexem no celular, atendem suas visitas. Por vezes, apenas eu assisto ao filme. Contudo,tenho aprendido que o mais importante não é o tempo que permanecem conectados à narrativa mas o quanto se apropriam dela para conectarem-se a si mesmos e aos outros.
segunda-feira, 11 de abril de 2016
Cinema como forma de ocupação da cidade-entre sensibilidades e conflitos
Territórios sensíveis- 11/04/16-Projeto Ciclo Cine Afonso Pena
Em muitos contextos falou-se que a praça é do povo, bem e espaço irrevogável para o exercício da cidadania. Assim, ocupá-la seria tornar-se parte de uma esfera pública permeada de negociações e alguns conflitos, alguns, digam-se de passagem, bastante interessantes. Na Praça Afonso Pena,no bairro da Tijuca, não é diferente.A começar pelo acesso, disponível para pedestres,motoristas,ciclistas e ponto de saída da linha 1 do pequeno, simples,mas ainda existente metrô do Rio de Janeiro. Nas noites de sábado, como pude conferir, somam-se aos já citados frequentadores, pipoqueiros, pula-pulas, carrinhos elétricos de aluguel, vendedores de churros e muitas, muitas bicicletas. Aqui e ali, crianças e cachorros correm e lá no fundo um samba engajado desfia seu repertório. Nessa polifonia de diferentes atividades fica difícil localizar onde seria a projeção do Ciclo Cine. Finalmente encontro uma tela estendida bem perto da saída do metrô e algumas bicicletas aglomeradas junto à equipe, que lidava com as intempéries do sistema de som de seu triciclo audiovisual (http://movimentoconviva.com.br/projecoes-de-bike-por-sp/). Para minha total surpresa, não se tratava de apenas uma projeção, onde a narrativa seria menos importante do que a ocupação do espaço. Afinal, o Ciclo Cine tem uma causa, que é nos convidar a refletir sobre mobilidade urbana e ocupação do espaço público. Assim, projetam filmes sobre movimentos de ciclistas ao redor do país e na América Latina. O engajamento extrapola a tela, pois os participantes vem à praça em suas bicicletas, combinam encontros e buscam convidar outras pessoas para participar dos passeios e mobilizações. Enquanto converso com uma participante que, voluntariamente, me conta que costuma ir de bicicleta da Central do Brasil ao Leblon (!) o filme começa. Estamos todos sentados em cangas, no meio-fio,na grama, apoiados nas bicicletas ou mesmo em pé. Aqui e ali, cada um encontra sua forma de habitar, deitando no chão, tirando os sapatos e até abrindo garrafas de vinho, como uma forma de potencializar a experiência estética e coletiva em suas mais diversas formas. No passeio da praça muita gente passa e interrompe seu percurso para observar o filme, ou mesmo para interferir na tela, seja projetando sua sombra ou tentando chamar atenção pelo barulho de bicicletas e carrinhos. É muito interessante perceber o quanto aquele espaço se torna um microcosmos da própria narrativa dos filmes. Enquanto na tela ciclistas de Montevidéu caminham pelas ruas da cidade pedindo espaço e direitos de ocupação e circulação, ali na praça bicicletas, pedestres e nós dividimos espaço com enormes carrinhos infantis elétricos, onde pais exaustos se esforçam para segurar seus empolgados rebentos. E, como é de se imaginar, ocorrem conflitos, pela interrupção do áudio do filme, pelo atravessamento da tela por corpos, carros e bicicletas. O espaço público torna-se espaço narrativo, polifônico, onde corpos e veículos negociam seus lugares,intervém na mobilidade de cada um, constroem modos de vida e olhares para a cidade. No interagir torna-se necessário repensar na forma como ocupamos o espaço urbano e nos imaginários que absorvemos e reproduzimos,em nossas práticas e nas práticas que legamos a nossos filhos. Seria apenas um brinquedo ensinar nossos filhos a pilotar veículos, em detrimento de acostumá-los ao exercício de pedalar pelas ruas, ocupando-as e ressignificando a forma de estar no mundo?Que tipo de educação dar a eles, quando lhes incutimos desde cedo a tarefa de manipular grandes máquinas motoras onde estarão quase sempre solitariamente atravessando a cidade?Também eu não tenho a resposta, pois também fui criada para vincular minha emancipação à habilidade de conduzir um veículo automotivo, muito mais do que uma bicicleta. Mas ali,compartilhando o espaço com aquelas pessoas, me senti maravilhosamente sendo sacudida por outras formas de pensar, que fatalmente me farão refletir sobre muitas outras coisas e , quem sabe,a tomar atitudes em relação à forma como me desloco no mundo. Mais do que uma experiência estética no sentido da fruição, a projeção de filmes do Ciclo Cine tornou-se sensível pela força com que me levou a refletir sobre mim, sobre minhas escolhas e representações. E tal fato só ocorreu, imagino eu, posto que a tela do cinema ampliou-se para abarcar a praça, transfigurando-a em espaço político, de compartilhamento e negociação de formas de estar no mundo.
Em muitos contextos falou-se que a praça é do povo, bem e espaço irrevogável para o exercício da cidadania. Assim, ocupá-la seria tornar-se parte de uma esfera pública permeada de negociações e alguns conflitos, alguns, digam-se de passagem, bastante interessantes. Na Praça Afonso Pena,no bairro da Tijuca, não é diferente.A começar pelo acesso, disponível para pedestres,motoristas,ciclistas e ponto de saída da linha 1 do pequeno, simples,mas ainda existente metrô do Rio de Janeiro. Nas noites de sábado, como pude conferir, somam-se aos já citados frequentadores, pipoqueiros, pula-pulas, carrinhos elétricos de aluguel, vendedores de churros e muitas, muitas bicicletas. Aqui e ali, crianças e cachorros correm e lá no fundo um samba engajado desfia seu repertório. Nessa polifonia de diferentes atividades fica difícil localizar onde seria a projeção do Ciclo Cine. Finalmente encontro uma tela estendida bem perto da saída do metrô e algumas bicicletas aglomeradas junto à equipe, que lidava com as intempéries do sistema de som de seu triciclo audiovisual (http://movimentoconviva.com.br/projecoes-de-bike-por-sp/). Para minha total surpresa, não se tratava de apenas uma projeção, onde a narrativa seria menos importante do que a ocupação do espaço. Afinal, o Ciclo Cine tem uma causa, que é nos convidar a refletir sobre mobilidade urbana e ocupação do espaço público. Assim, projetam filmes sobre movimentos de ciclistas ao redor do país e na América Latina. O engajamento extrapola a tela, pois os participantes vem à praça em suas bicicletas, combinam encontros e buscam convidar outras pessoas para participar dos passeios e mobilizações. Enquanto converso com uma participante que, voluntariamente, me conta que costuma ir de bicicleta da Central do Brasil ao Leblon (!) o filme começa. Estamos todos sentados em cangas, no meio-fio,na grama, apoiados nas bicicletas ou mesmo em pé. Aqui e ali, cada um encontra sua forma de habitar, deitando no chão, tirando os sapatos e até abrindo garrafas de vinho, como uma forma de potencializar a experiência estética e coletiva em suas mais diversas formas. No passeio da praça muita gente passa e interrompe seu percurso para observar o filme, ou mesmo para interferir na tela, seja projetando sua sombra ou tentando chamar atenção pelo barulho de bicicletas e carrinhos. É muito interessante perceber o quanto aquele espaço se torna um microcosmos da própria narrativa dos filmes. Enquanto na tela ciclistas de Montevidéu caminham pelas ruas da cidade pedindo espaço e direitos de ocupação e circulação, ali na praça bicicletas, pedestres e nós dividimos espaço com enormes carrinhos infantis elétricos, onde pais exaustos se esforçam para segurar seus empolgados rebentos. E, como é de se imaginar, ocorrem conflitos, pela interrupção do áudio do filme, pelo atravessamento da tela por corpos, carros e bicicletas. O espaço público torna-se espaço narrativo, polifônico, onde corpos e veículos negociam seus lugares,intervém na mobilidade de cada um, constroem modos de vida e olhares para a cidade. No interagir torna-se necessário repensar na forma como ocupamos o espaço urbano e nos imaginários que absorvemos e reproduzimos,em nossas práticas e nas práticas que legamos a nossos filhos. Seria apenas um brinquedo ensinar nossos filhos a pilotar veículos, em detrimento de acostumá-los ao exercício de pedalar pelas ruas, ocupando-as e ressignificando a forma de estar no mundo?Que tipo de educação dar a eles, quando lhes incutimos desde cedo a tarefa de manipular grandes máquinas motoras onde estarão quase sempre solitariamente atravessando a cidade?Também eu não tenho a resposta, pois também fui criada para vincular minha emancipação à habilidade de conduzir um veículo automotivo, muito mais do que uma bicicleta. Mas ali,compartilhando o espaço com aquelas pessoas, me senti maravilhosamente sendo sacudida por outras formas de pensar, que fatalmente me farão refletir sobre muitas outras coisas e , quem sabe,a tomar atitudes em relação à forma como me desloco no mundo. Mais do que uma experiência estética no sentido da fruição, a projeção de filmes do Ciclo Cine tornou-se sensível pela força com que me levou a refletir sobre mim, sobre minhas escolhas e representações. E tal fato só ocorreu, imagino eu, posto que a tela do cinema ampliou-se para abarcar a praça, transfigurando-a em espaço político, de compartilhamento e negociação de formas de estar no mundo.
terça-feira, 8 de março de 2016
Dia das mulheres. No cinema. E em qualquer lugar. Em cartaz: Malala
Territórios sensíveis-Cinema no HU. 08/03/16. Enfermaria 9A 37
Se o feminismo veio na mamadeira de muitas de nós, não deveria ser difícil pensar em um filme para exibir nesse dia tão importante, certo?Errado! Ao receber a tarefa de escolher um filme para exibir hoje entrei em parafuso, pois as opções, sendo inúmeras, indicavam cada uma um caminho diferente. De imediato, As sufragistas foi minha escolha principal. Seria ótimo exibir esse filme hoje em uma enfermaria cheia de mulheres. Infelizmente não foi possível baixá-lo ou comprá-lo a tempo. Estava bem desanimada quando me deparei com o Documentário Malala, indicado ao Oscar de 2016. Levei-o. Ainda na chegada à enfermaria percebo que o local esta ocupado com muitos internos realizando procedimentos. Espero uns 40 minutos até que a aula acabe e possamos iniciar. Como hoje a sala estava muito mais clara do que de costume, optei pelo áudio em português em vez da legenda, para tentar captar melhor a atenção do público. Tal estratégia parece ter sido bem sucedida de início, se levarmos em consideração que quase todas as pacientes prestaram atenção logo de cara no filme. Ocorre que uma exibição em uma enfermaria é uma exibição em uma enfermaria. Em um hospital universitário, ainda mais. Há que se abstrair o calor, a luz, o barulho e as constantes interrupções no filme. Durante toda a sessão, as pacientes prestam atenção por alguns minutos, depois levantam-se, vão ao banheiro, mexem no celular, tiram um cochilo.Hoje,pela primeira vez, compreendi melhor essa dinâmica e, em vez de me sentir desanimada e propensa a desligar o projetor mais cedo, apostei em exibir o filme até o final. E então, como geralmente acontece, a magia da narrativa se fez. Começou devagar, com os já costumeiros “olha, cinema, que legal”, de quem passava no corredor. Depois, com uma das acompanhantes reconhecendo a figura de Malala e sua história. E, um pouco depois da metade do filme, fui chamada por uma outra acompanhante que,silenciosamente, puxou sua cadeira para mais perto da “tela”, assistiu um bocado e me falou,pensativa:”essa menina, nossa, ela se parece com Ester,você conhece a história dela?”. Ante a envergonhada negativa, ela me contou que Ester, a da Bíblia, tinha sido uma mulher muito corajosa,que também enfrentara injustiças e que lutara por seu povo, assim como Malala. Ao seu lado, mais duas acompanhantes concordaram e (enquanto o filme corria) começamos a falar sobre a situação das mulheres paquistanesas, a semelhança com nossas mulheres no Brasil e como Malala havia sido corajosa de enfrentar tamanha violência. E então, juntas, concluímos: ela sobrevivera para contar sua história, para levá-la aos quatro cantos do mundo, para quem quisesse ouvi-la, mesmo uma longínqua enfermaria pública nos trópicos. Enquanto isso, a paciente, mais nova, que não aparentava ter mais de 20 anos, acompanhava atenta todos os detalhes do filme, mesmo com sua cama rodeada de visitas. Filme terminado, perguntei se gostaram. “Sim, muito”, foi a resposta geral. Comentei que a intenção fora mostrar um filme em homenagem ao dia de hoje. Todas aprovaram a escolha e, no final, ainda ouço o seguinte comentário de uma acompanhante, relacionando o dia de hoje ao filme e à coragem de Malala: "porque hoje mulheres não são mais dependentes, só quando querem..Mulheres fazem tudo e são ainda mais fortes...". Saí de alma lavada e passada(como diz uma amiga)... O dia de hoje, mais do que aquecer o coração para uma empatia necessária entre mulheres (não só hoje como sempre) me fez pensar no lugar do documentário na enfermaria. Mais que um entretenimento, o cinema hoje foi absolutamente comunicacional, como um programa jornalístico que se assiste ou uma transmissão de rádio, levando até as senhoras a história de Malala e fazendo-as refletirem e debaterem. Mais do que isso, na identificação com figuras femininas houve a conexão necessária para que se colocassem como parte da narrativa. E essa ligação não estava relacionada com o ato cotidiano de assistir o filme do começo ao fim, mas de ser definitivamente tocado por aquela história. Dessa forma, o cinema hoje foi uma janela para que o mundo pudesse entrar na enfermaria e ser observado, debatido e ressignificado pelas pacientes. Janela que foi aberta não só por mim, ou pela minha presença na enfermaria, nem tão pouco pelo filme, mas construída no espaço entre nós, o filme e nossa experiência tão coletiva quanto afetiva.
Se o feminismo veio na mamadeira de muitas de nós, não deveria ser difícil pensar em um filme para exibir nesse dia tão importante, certo?Errado! Ao receber a tarefa de escolher um filme para exibir hoje entrei em parafuso, pois as opções, sendo inúmeras, indicavam cada uma um caminho diferente. De imediato, As sufragistas foi minha escolha principal. Seria ótimo exibir esse filme hoje em uma enfermaria cheia de mulheres. Infelizmente não foi possível baixá-lo ou comprá-lo a tempo. Estava bem desanimada quando me deparei com o Documentário Malala, indicado ao Oscar de 2016. Levei-o. Ainda na chegada à enfermaria percebo que o local esta ocupado com muitos internos realizando procedimentos. Espero uns 40 minutos até que a aula acabe e possamos iniciar. Como hoje a sala estava muito mais clara do que de costume, optei pelo áudio em português em vez da legenda, para tentar captar melhor a atenção do público. Tal estratégia parece ter sido bem sucedida de início, se levarmos em consideração que quase todas as pacientes prestaram atenção logo de cara no filme. Ocorre que uma exibição em uma enfermaria é uma exibição em uma enfermaria. Em um hospital universitário, ainda mais. Há que se abstrair o calor, a luz, o barulho e as constantes interrupções no filme. Durante toda a sessão, as pacientes prestam atenção por alguns minutos, depois levantam-se, vão ao banheiro, mexem no celular, tiram um cochilo.Hoje,pela primeira vez, compreendi melhor essa dinâmica e, em vez de me sentir desanimada e propensa a desligar o projetor mais cedo, apostei em exibir o filme até o final. E então, como geralmente acontece, a magia da narrativa se fez. Começou devagar, com os já costumeiros “olha, cinema, que legal”, de quem passava no corredor. Depois, com uma das acompanhantes reconhecendo a figura de Malala e sua história. E, um pouco depois da metade do filme, fui chamada por uma outra acompanhante que,silenciosamente, puxou sua cadeira para mais perto da “tela”, assistiu um bocado e me falou,pensativa:”essa menina, nossa, ela se parece com Ester,você conhece a história dela?”. Ante a envergonhada negativa, ela me contou que Ester, a da Bíblia, tinha sido uma mulher muito corajosa,que também enfrentara injustiças e que lutara por seu povo, assim como Malala. Ao seu lado, mais duas acompanhantes concordaram e (enquanto o filme corria) começamos a falar sobre a situação das mulheres paquistanesas, a semelhança com nossas mulheres no Brasil e como Malala havia sido corajosa de enfrentar tamanha violência. E então, juntas, concluímos: ela sobrevivera para contar sua história, para levá-la aos quatro cantos do mundo, para quem quisesse ouvi-la, mesmo uma longínqua enfermaria pública nos trópicos. Enquanto isso, a paciente, mais nova, que não aparentava ter mais de 20 anos, acompanhava atenta todos os detalhes do filme, mesmo com sua cama rodeada de visitas. Filme terminado, perguntei se gostaram. “Sim, muito”, foi a resposta geral. Comentei que a intenção fora mostrar um filme em homenagem ao dia de hoje. Todas aprovaram a escolha e, no final, ainda ouço o seguinte comentário de uma acompanhante, relacionando o dia de hoje ao filme e à coragem de Malala: "porque hoje mulheres não são mais dependentes, só quando querem..Mulheres fazem tudo e são ainda mais fortes...". Saí de alma lavada e passada(como diz uma amiga)... O dia de hoje, mais do que aquecer o coração para uma empatia necessária entre mulheres (não só hoje como sempre) me fez pensar no lugar do documentário na enfermaria. Mais que um entretenimento, o cinema hoje foi absolutamente comunicacional, como um programa jornalístico que se assiste ou uma transmissão de rádio, levando até as senhoras a história de Malala e fazendo-as refletirem e debaterem. Mais do que isso, na identificação com figuras femininas houve a conexão necessária para que se colocassem como parte da narrativa. E essa ligação não estava relacionada com o ato cotidiano de assistir o filme do começo ao fim, mas de ser definitivamente tocado por aquela história. Dessa forma, o cinema hoje foi uma janela para que o mundo pudesse entrar na enfermaria e ser observado, debatido e ressignificado pelas pacientes. Janela que foi aberta não só por mim, ou pela minha presença na enfermaria, nem tão pouco pelo filme, mas construída no espaço entre nós, o filme e nossa experiência tão coletiva quanto afetiva.
quarta-feira, 2 de março de 2016
Cinema na Rua. Experiências sensíveis e formas de habitar a cidade
Pensar na experiência do cinema é pensar no contato individual com a narrativa fílmica a partir do ambiente escuro, frio e silencioso da sala de exibição, certo? Para o coletivo Projetação essa descrição não poderia estar mais errada. A começar pelo local onde os filmes são exibidos. Há claramente a escolha pela prática do cinema como ocupação de um território, proposta de narrativa que, longe de estar desassociada com o espaço público,intervém, toma posse,ressiginifca lugares da cidade.Assim foi no último dia 24 de fevereiro, na exibição do documentário feito na ocupação de escolas em São Paulo. O filme foi projetado no viaduto de Laranjeiras, entre as movimentadas ruas Pinheiro machado e Laranjeiras, para onde aflui diariamente o tráfego pesado de carros e gente. Isso significa primeiro que o áudio do filme vai ser atravessado pelas mais diversas sonoridades; desde o movimento de pessoas voltando para casa, o tráfego na rua de carros, bicicletas, cachorros e carrinhos de pipoca, principalmente estes últimos. Além disso, o evento reúne apresentação de bandas de música, criação/mostra de textos, pintura e muitas outras atividades acontecendo em conjunto com o filme,até mesmo o próprio filme, pois, além do filme, há projeção de imagens e textos criados na hora na parede do viaduto.Forma-se aí novas narrativas urbanas, circulando do concreto do viaduto ao chão da praça, passando pelo asfalto e pelos carros e ônibus. Em meio a toda essa mistura, chego ao Viaduto e me deparo com poucas pessoas, algumas sentadas no chão, outras confortavelmente instaladas em um murinho, enquanto os organizadores pensam onde vão exibir o filme. Em cima de uma bicicleta está o equipamento, mas os organizadores não têm pressa de montar a parafernália técnica necessária. Ao contrário. Se a ideia é ocupar o espaço, eles se revezam, passeando um após o outro com o equipamento pela pracinha que fica sob o viaduto, até que alguém lembra que é preciso montar a tela, ops, a lona. Enquanto isso, o público que chega ouve um jazz despretensioso tocado pela banda. Tem gente que passa voltando do trabalho, da escola, da padaria e interrompe o caminho para dar uma espiada. Tem gente que chega,senta no chão da praça e tem gente que passa por ali, olha e fica.Caso de um menino de seus 10 anos, provavelmente em situação de rua,que, para ver o filme,que fala de crianças como ele, que ocupam escolas da mesma forma que ele ocupa a praça. Dono da casa, muito à vontade, o menino circula, olha o filme e, por fim, senta do lado dos organizadores, que prometem dividir o dinheiro do “chapéu” com ele. Filme visto, o show continua, com música e pintura, debates e intervenções. Os textos continuam pendurados, em exposição no viaduto.As ilustrações estão impressas no chão da praça. E o cinema, que estava na tela, expandiu-se, multiplicou suas narrativas, ocupou o espaço urbano,fez dele lugar onde os corpos se revezam, constroem recortes, diferentes enquadramentos, propõem montagens e recortes onde a cidade e seus habitantes tornam-se possibilidades narrativas infinitas.
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016
Territórios sensíveis-16/01/16-Cinema no IPPMG
- “Tia, tem Velozes e furiosos?”
Na primeira sessão de cinema do ano os pedidos não mudaram. Seja qual for a idade, a enfermaria ou o estado de saúde, pacientes e acompanhantes sempre pedem a mesma coisa: um filme blockbuster. Afinal, se levamos o cinema para eles, por que não seria algo que já conhecem? É difícil compreenderem que os filmes do acervo não estão no cinema da esquina, mas foram feitos como instrumentos de uma educação audiovisual que nem sempre os pequenos espectadores estão dispostos a aceitar. Tenho a tendência a conversar com todos sobre suas preferências e percebo que, para a grande maioria, o cinema é como uma televisão em que encontram os mesmos produtos e personagens em um ambiente mais confortável e com pipoca de qualidade. No hospital, em meio à agitação da enfermaria, com frestas de cidade entrando pelas cortinas rasgadas e quando qualquer um pode de repente interromper a exibição do filme, como é possível existir experiência cinematográfica? Enquanto penso sobre essa questão, exibo Príncipes e Princesas, Minhocas e, claro, o agora já clássico Ernesto no país do futebol . É incrível como a temática do futebol vence muros de impaciência e preguiça e convoca os olhares dos meninos. Apesar de emburrado, pois não exibi nenhum dois vários filmes blockbusters que me pediu, um dos meninos (meio a contragosto) assistiu ao filme. No final, quando os créditos são acompanhados pela execução do hino nacional, alguns pais cantavam junto. Mais um imaginário forte a ser trabalhado, esse referente ao patriotismo de cada um. Seria mesmo necessário um signo comum para que houvesse a comunicação?E, havendo comunicação, seria ela da ordem do sensível, ou apenas um compartilhamento temporário de lugares e experiências estéticas?Porque, por vezes há sorrisos em seus rostos, mas seria possível que o sensível os atingisse para além do entretenimento?Tais são algumas perguntas que me faço, enquanto guardo os equipamentos no armário.
Na primeira sessão de cinema do ano os pedidos não mudaram. Seja qual for a idade, a enfermaria ou o estado de saúde, pacientes e acompanhantes sempre pedem a mesma coisa: um filme blockbuster. Afinal, se levamos o cinema para eles, por que não seria algo que já conhecem? É difícil compreenderem que os filmes do acervo não estão no cinema da esquina, mas foram feitos como instrumentos de uma educação audiovisual que nem sempre os pequenos espectadores estão dispostos a aceitar. Tenho a tendência a conversar com todos sobre suas preferências e percebo que, para a grande maioria, o cinema é como uma televisão em que encontram os mesmos produtos e personagens em um ambiente mais confortável e com pipoca de qualidade. No hospital, em meio à agitação da enfermaria, com frestas de cidade entrando pelas cortinas rasgadas e quando qualquer um pode de repente interromper a exibição do filme, como é possível existir experiência cinematográfica? Enquanto penso sobre essa questão, exibo Príncipes e Princesas, Minhocas e, claro, o agora já clássico Ernesto no país do futebol . É incrível como a temática do futebol vence muros de impaciência e preguiça e convoca os olhares dos meninos. Apesar de emburrado, pois não exibi nenhum dois vários filmes blockbusters que me pediu, um dos meninos (meio a contragosto) assistiu ao filme. No final, quando os créditos são acompanhados pela execução do hino nacional, alguns pais cantavam junto. Mais um imaginário forte a ser trabalhado, esse referente ao patriotismo de cada um. Seria mesmo necessário um signo comum para que houvesse a comunicação?E, havendo comunicação, seria ela da ordem do sensível, ou apenas um compartilhamento temporário de lugares e experiências estéticas?Porque, por vezes há sorrisos em seus rostos, mas seria possível que o sensível os atingisse para além do entretenimento?Tais são algumas perguntas que me faço, enquanto guardo os equipamentos no armário.
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