sexta-feira, 18 de novembro de 2016

O que se aprende quando se aprende Cinema no Hospital

Territórios Sensíveis-18/11/16 Enfermaria C. 5 crianças. Filmes: Liligrafia. Garrafa do diabo Lights out Peste da Janice Príncipes e princesas





“O que se aprende quando se aprende Cinema no Hospital” é a tese maravilhosa de Fernanda Omelzuck (UFRJ), pioneira no projeto de Cinema no IPPMG e uma das maiores responsáveis pela manutenção da atividade. Hoje, durante a prática, a pergunta título da tese persistia em me acompanhar. Quando me dou conta de que estou no hospital há 17 meses começo a perceber as transformações que ocorreram e ainda ocorrem a cada visita. Inicialmente apenas acompanhando as atividades propostas, atravessei um período indo sozinha às enfermarias e tive o pânico inicial de não conseguir dar conta das constantes demandas das crianças ou dos numerosos imprevistos que ocorrem quando se leva o cinema até o hospital. Estão bem claros na memória os primeiros momentos, quando um grupo de crianças ainda muito pequenas insistia em interagir com o projetor, chegando a grudar os olhos na lente, para meu total desespero. Um ano depois as intervenções das crianças me divertem e servem de motivo para que possa propor atividades. Hoje, enquanto elas assistem aos filmes, me pego pensando em práticas voltadas ao conteúdo do filme, à faixa etária e, como de costume, à recepção das crianças. Já consigo compreender o tempo de cada um deles, o momento em que se conectam com a projeção e quando grudam os olhos em mim, esperando mais alguma coisa. Enquanto as entretenho com perguntas, apontando esse ou aquele detalhe do filme, trago exercícios com brinquedos ópticos como o thaumatrópio e o praxinoscópio, nomes impossíveis para a pronúncia das crianças. Eles então reinventam os nomes, se apropriam dos brinquedos, acham graça na forma como são construídos. E, num universo de imagens e tecnologia, ainda me parece mágico que se possa encantar uma criança com um recurso de unir duas imagens e associá-las, apenas girando os discos do thaumatrópio. Mas talvez seja exatamente pelo inusitado que os meninos, ao terem em mãos um recurso de ilusão de óptica, quase todos, independente da idade, sorriem e querem também construir seu próprio brinquedo. As atividades não impedem a projeção dos filmes, que ocorre em paralelo. Enquanto o cardápio de filmes passa de entre eles, ligo o projetor e imediatamente varias mãozinhas começam a interagir com a luz. Entro na brincadeira e proponho que contem histórias com os personagens feitos com as sombras. Risos e negativas.Afinal, não sabem contar historias, dizem. Estimulo-os a criarem formas com as sombras das mãos e surgem um coelho, uma aranha e um cachorro que começam, como era de se esperar, a interagir. Pontuo os personagens e a mise-en-scene e é com espanto que alguns conseguem perceber que sim, acabaram de contar uma história. E ainda estamos no primeiro filme (Peste da Janice). Enquanto oferecemos as plaquinhas para que possam demonstrar se gostaram ou não do filme, peço que identifiquem os personagens e o que aconteceu com eles. E vamos nessa dinâmica ate o segundo filme, Liligrafia. Ali já vejo alguns rostos mais silenciosos e um pouco entediados,pois trata-se de um filme com menos ação. Contudo, uma das meninas interage com a narrativa, descobrindo personagens, enquanto os outros apenas assistem. Ao final do segundo filme recebo o pedido para filmes de terror de três crianças. Temos em arquivo algumas histórias com essa temática, ainda que voltados para o público infantil e, por sugestão de um dos componentes do nosso grupo, exibimos Day Light, curta-metragem de 2 minutos que deixa os meninos eletrizados e que preciso exibir novamente, a pedido da plateia. Contudo, nem todos gostam. Uma das meninas esconde o rosto com o lençol e chega mesmo a virar de costas,dizendo detestar o gênero. Nem mesmo Garrafada do Diabo, o próximo filme a ser exibido, consegue demovê-la da posição. E é assim, de costas para a tela, que ela fica até o momento em que resolvo colocar Príncipes e Princesas, o último dos filmes. Logo que escuta a narração e a palavra princesa a menina olha discretamente por sobre o ombro e instantaneamente se vira para assistir. Ao final do primeiro capítulo do filme (composto de algumas histórias com a mesma temática de príncipes), todas as crianças estão com seus thaumatrópios em mãos e os giram diante dos olhos. Todos menos A., de seus 10 anos, que já conhecemos de outras visitas. Ele não interage conosco, apenas acompanha silenciosamente, enrolado em seu cobertor. Da mesma forma C., na mesma faixa etária, não se aproxima da projeção. Apenas aproveita o recurso da divisória de vidro entre os dois lados da enfermaria para poder assistir ao filme. Paciente de outras semanas de visita, C. também conhece algumas das historias exibidas. É ele que me conta detalhadamente a sinopse de A garrafa do diabo. Ao final do dia percebo que cada um dos meninos vivenciou a experiência com o cinema de uma forma. Seja com a intervenção direta na projeção, através dos brinquedos óticos ao tentarem adivinhar o lugar da câmera ou apenas acompanhando a movimentação, cada criança criou sua própria experiência, compartilhando-a com os demais conforme foi de seu interesse. No momento em que se baixa a luz da enfermaria e se abre uma janela pela projeção dos filmes as crianças interagem, começam a se apropriar das histórias e as dividem com os demais, apontando elementos e debatendo sobre as atividades propostas. Enquanto conversam, nem sempre deixam a porta aberta para que eu entre em suas interações. Preciso pedir licença, como sempre, para que me deixem penetrar nesse território. O minuto em que consigo sua atenção é mágico.e assustador.Por vezes me pego pensando, no meio de uma atividade, o que mais posso fazer para entretê-los e o quanto podem achar interessante determinada prática.Contudo, de todas as atividades nada me deixa mais feliz do que ver suas mãos atravessando a luz, interferindo no filme e criando, instantaneamente novas histórias e personagens,que vão habitar a enfermaria junto com seus criadores.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

territórios sensíveis- 281016

Duas horas.120 minutos. Nove crianças. Duas enfermarias. Seis filmes. Quantitativamente, a experiência do cinema nesta última sexta-feira tem números relevantes.Afinal, não é todo dia que conseguimos montar a projeção em três ambientes, com escolha de filmes pelos meninos e,nos intervalos, a prática com brinquedos óticos.Mais do que isso, com a participação de quase todas as crianças internadas.Contudo,o valor maior da prática de não está nos números, mas nos rostos, na percepção de que realmente conseguimos criar um ambiente sensível para além dos muros, que se reflete nos olhos das crianças,nas mãos curiosas que se apropriam dos flipbooks e do praxinoscópio e o fazem girar. Se o projeto de cinema tem uma particularidade, já diversas vezes citada, é sua imprevisibilidade,dadas as reconfigurações constantes do seu ambiente.Talvez por isso também, os limites de seu território são impossíveis de precisar, podendo expandir-se ou encolher-se ao sabor dos acontecimentos.Assim foi hoje.Tão logo começamos, recebemos o apoio entusiasmado de todas as crianças internadas,seja escolhendo filmes, fazendo muitas perguntas ou apenas ajeitando-se na cama para melhor assistirem ao filme.Tenho hoje uma faixa etária que poderia definir entre os seis e doze anos , divididos entre meninos e meninas..Contudo com nenhum deles temos a rejeição ao cardápio de filmes,como costuma acontecer sempre que temos crianças mais velhas entre nós. O primeiro filme a ser exibido é Ernesto no país do futebol,escolhido por mim para Miguel, cuja mãe informa que ele tinha predileção por futebol. Enquanto isso, trago o praxinoscópio diante de Pérola, que fica encantada e me pergunta onde vou exibir o filme.Respondo que vou arrumar a cortina(todos os filmes são exibidos no blackout da enfermaria)para podermos começar a sessão. Ela sorri e diz “puxa,então nem vai parecer mais a enfermaria,vai ficar igual o cinema,só falta a pipoca”, me fazendo sorrir. A referência à pipoca é uma unanimidade entre adultos e crianças internados e sempre me pego pensando se seria possível ,pelo menos um dia,atender a essa solicitação.Enquanto mostro a Alessandro(que já participara antes de outra exibição,pois me recordo de seu rosto) o brinquedo ótico, peço às demais crianças que escolham seus filmes. Algumas escolhem devido ao nome. Outras,por intervenção materna. Recebo o pedido para exibir Cada qual com cada seu, filme de 15 minutos que fala de crianças do Rio de Janeiro. E sou surpreendida pelo pedido para ver A velha a fiar, que resgata jogos de memória, tão presentes nas brincadeiras infantis. Após o filme, as crianças recebem as plaquinhas, para que possam manifestar suas opiniões sobre os filmes e todas exibem a placa do bonequinho aplaudindo.Estamos na terceira exibição quando recebo o pedido para que visite outra enfermaria,porque há dois meninos,Ruan e Leonardo, que estão recebendo transfusão e queriam muito ver filmes. É interessante como a grande maioria dos profissionais de saúde enxerga o cinema como uma distração,mero entretenimento.Contudo, quando assistem aos filmes as crianças por vezes deixam seus jogos, tvs,tablets e brinquedos para concentrarem-se na experiência fílmica,que ocorre em uma cortina rasgada, em meio ao barulho e à movimentação da enfermaria. Se o cinema não serviria para distraí-los mais do que seus costumeiros brinquedos, que componente seria esse que os faria conectar-se à grande imagem à frente?seria o componente inusitado da reconfiguração e ressignificação do espaço? Ainda não consigo precisar. Enquanto isso exibimos o último filme na enfermaria C e partimos para a B,afinal nosso público nos aguarda.Devido ao adiantado da hora já encontrou os meninos sentados em cadeiras e proponho irmos minhocas,animação em stop-motion que sempre encanta adultos e crianças. Como que a confirmar minha fala,logo um pai vem sentar-se com seu bebê, que assiste o filme sem desviar os olhos da tela. Ao final,enquanto aguardamos os equipamentos, consigo me surpreender com a quantidade de atividades realizadas,algo que nunca acontecera antes.Talvez seja o componente necessário à prática: não fazer planos e estar sempre aberto às constantes modificações,caso do dia de hoje.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Cinema no HU -111016 Do cinema que se faz nos silêncios

A experiência do cinema no hospital envolve primordialmente a invisibilidade e o deslocamento. Partindo dessa premissa não é difícil supor que nem sempre tudo sai como planejado, por melhores que sejam nossas intenções. Assim foi hoje, quando eu previra exibir The Red Balloon, belíssimo filme de 1956.Além disso, pela primeira vez eu tentaria propor uma atividade diferente da dobradinha exibição + debate. Com alguns planos do filme impressos eu tentaria fazer com que os pacientes contassem suas histórias. Quis o acaso que o equipamento não estivesse disponível e me coube perambular pelos corredores em busca de soluções que, infelizmente, não vieram. Acontece que o olhar que se abre para o exercício do cinema jamais encontrará sossego novamente. Sem descanso, a cada esquina novas histórias se apresentam, combinando realidade e poesia. E foi assim que, em um dia particularmente controverso da nossa história atual (momento de aprovação de uma PEC que congela os investimentos em Saúde e Educação por 20 anos) comecei a enxergar o hospital como um grande palco inserido em uma realidade completamente adversa. Aqui e ali os personagens se sucediam, como em uma peça bretchiana, tentando exercer sua função. Em todos os cantos sobressaem os buracos, seja nas paredes, nos leitos ou nas almas (me perdoem pesar a mão no drama. O momento faz-se necessário). Para o observador mais desatento não passará desapercebido o abandono das pilastras da entrada, os resquícios de obras inacabadas, que se sucedem sem descanso pelos corredores, a enorme fila de pacientes nos ambulatórios. Circulando sem cessar os profissionais de saúde, sempre sem parar um só momento, tentando preencher com seus corpos as ausências, financeiras e afetivas. Daqui de onde olho, do desconfortável lugar de contar histórias em um ambiente onde tantas narrativas se confrontam (muitas desagradáveis), penso na cena seguinte, no próximo mês de um longo período sem investimentos em um dos maiores hospitais do país. Penso nas enfermarias, estufas no verão, geladas no inverno, onde se encolhem em seus cobertores pacientes que não podem apreciar a paisagem, posto que as janelas(concebidas para serem panorâmicas) estão cobertas de insulfilme descascado. Penso nas salas onde as macas, cadeiras e comadres se acumulam, sem substituição. Percorro os corredores onde as portas, envelhecidas, rangem e empenam. Me assusto com a rouparia, de onde um lençol pode levar semanas para sair. O que mais me assusta, contudo,não são os suprimentos, facilmente substituíveis,mas o material humano, esse único, pessoal e intransferível. O que ocorre se ele exaurir suas forças, perder seus recursos, recusar-se a continuar colaborando, ante a absoluta falência da instituição? O que restará da saúde como direito fundamental, intrinsecamente associada não somente à cura de doenças mas a garantia de bem estar(tanto individual como social?)Nos restará, indubitavelmente a morte e o esquecimento. Impossivel, nesse lugar, não me lembrar de uma palestra, ouvida recentemente. Ali, onde Walter Carvalho deveria falar sobre direção de fotografia. Em dado momento o fotógrafo dizia que o obturador da câmera permanece apenas metade do tempo aberto, capturando o mundo.Na outra metade do tempo ele permanece fechado, fazendo o filme(atualmente o sensor) voltar à posição/condição “original”. Sendo assim, Carvalho concluía, parte do cinema se faz em nossas mentes no escuro e no silêncio. Daí sua importância para pensar e transformar o mundo. Assim, em tempos tão sombrios começo a pensar o cinema como mais do que uma experiência narrativa, mas em sua potência de ocupação de espaço, como estratégia, necessária e urgente, de reExistência.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

“Mas é cinema mesmo? Daqueles de verdade?”

Cinema no HU.20/09/16.Enfermaria 9B13





Assim começa a sessão de cinema do HU. Dessa vez a proposta foi apresentada pela equipe de assistência social do HU, que pensou trazer diversão aos pacientes. O que eles talvez não soubessem é que a experiência do cinema foi muito além de distração e entretenimento. Por ser um projeto específico do serviço social, a sessão contou com a organização da “sala”, feita com o deslocamento dos pacientes para que pudessem ficar mais próximos da tela. Também tivemos a sorte de um dia mais escuro, o que torna a (quase sempre iluminada) enfermaria do HU uma sala de projeção mais de acordo com o convencional. A partir do momento em que os pacientes foram deslocados, em seus rostos já transparecia a expectativa pelo que se ia passar. Inicialmente seriam exibidos dois curta-metragem de animação mas, como um deles apresentou problemas de áudio, optei por exibir o sempre maravilhoso Tarja Branca que, para quem ainda não conhece, trata da importância da brincadeira na vida cotidiana, seja ela de adultos ou crianças. Como mágica, nos primeiros acordes da trilha sonora os quatro pacientes da enfermaria masculina e suas duas acompanhantes (mais os profissionais de saúde) entraram no clima do filme, prestando muita atenção ao que era dito na tela. A cada fala ou inserção sonora, ouvidos e olhos atentos (de pacientes e profissionais) iam pouco a pouco se comovendo com a proposta do documentário, que era a mais simples e, portanto, genial :convidar a uma viagem pelo território sagrado da infância, convocando nossas memórias de brincadeiras, sensações e sonhos. Assim na tela como na enfermaria uma vez que concordemos em mergulhar nas crianças que fomos, sobra espaço para a emoção e as histórias, como que por encantamento, vão surgindo uma após a outra. No fim do filme, como sempre faço, pergunto aos pacientes se preferiram a animação ou o documentário. O documentário, é voz geral. Um e outro vão lembrando das brincadeiras de infância, dos jogos que não fazem mais (por cansaço, idade ou impossibilidade física). Um dos pacientes, que não tem uma das pernas, lembra das festas juninas de antigamente, quando era o último a sair da rua, aplaudido pelos amigos. Hoje a memória de quem o viu dançar doi, prefere não ir à festa, nem tomar conhecimento. Enquanto falo que ele ainda pode ir à festa, ele lembra que hoje em dia a insegurança das ruas impossibilita a todos participar de festas como antes. Lembro que ele ainda tem as memórias, que são suas e que pode visitá-las sempre que quiser. Ele sorri, me olha e concorda: é verdade! Tenho sim! Ao final, como sempre acontece, saímos do encontro com nossas almas sempre mais leves, um tanto quanto melancólicos mas, indiscutivelmente mais sensíveis e com um breve sorriso no rosto. O papel do cinema nesse caso é abrir as portas às nossas lembranças mais profundas, territorializar nossa infância em imagens, sons e cheiros e então, quando nos damos conta, voltamos a ser as crianças de antes, reconhecendo-as no fundo de nossos olhos. Epílogo:Quando falamos do projeto e sua periodicidade(semanal), um dos pacientes,sorriso no rosto, disse: -"não pode ser todo dia,não?"

sábado, 17 de setembro de 2016

Meu bem, não chore! Hoje tem filme de Carlitos! Enfermaria C-IPPMG-16/09/16

Na volta das férias, me deparo com uma enfermaria cheia de crianças, todos meninos entre 3 a 8 anos. Proponho a exibição, como sempre fazemos e recebo em troca gritos de “oba, cinema”, “cinema, Cinema, hoje é dia de cinema”,que me deixam muito feliz. Enquanto apresento o cardápio dos filmes a serem exibidos, percebo um menino,dos seus três anos, se aproximar: -Tia, passa meu filme? Pergunto qual é o filme. Ele diz,orgulhoso:Patati-Patatá! Por regra, não exibimos filmes conhecidos, pois o objetivo do projeto é apresentar narrativas e estéticas desconhecidas que, justamente por isso, convidem as crianças a novas experiências com os filmes. Contudo, é preciso negociar e combino com meu mais novo amigo, Marcelo, que sim, passarei um pequeno trecho do filme. Assim, ganho mais um espectador para a exibição, mesmo que sua assistência seja a bordo de um velocípede, com o qual anda por entre as camas, aparelhos e enfermeiras. Logo tenho quatro meninos assistindo ao filme, sentados nas camas, mais Marcelo, que pedala ali por perto e Tiago, que, em vez de assistir à projeção na cortina, prefere se sentar no chão e assistir sozinho, bem perto do computador. O sucesso foi tanto que conseguiu mobilizar até um menino de outra enfermaria, que veio caminhando devagar, bastante debilitado. Enquanto os profissionais de saúde se revezavam no atendimento, tentando não atrapalhar a projeção, a equipe de limpeza aguardava para lavar a enfermaria, um dos meninos era retirado de maca para um exame e o pessoal da logística trazia duas enormes cadeiras de acompanhante, os filmes prosseguiam. Nada além do caos normal.Em cartaz “Caçada ao Saci, “A sombra de Sofia” e “Três Avós”. Estamos no terceiro filme e, enquanto garanto a Marcelo que seu filme será exibido, me dou conta de que um dos meninos, justamente o que estava do outro lado da enfermaria, não veio assistir o filme. Pergunto porque.A mãe me explica que ele está com a imunidade baixa e não pode se aproximar muito das outras crianças. Imediatamente levo o cardápio para ele e me comprometo a levar o projetor para lá, mesmo que isso inclua uma delicada cirurgia no blackout da enfermaria para juntar as partes rasgadas e construir uma tela minimamente decente. Assim foi feito. Filmes exibidos, coloco o DVD de Marcelo e instantaneamente ele começa a dançar e cantar. Vê-lo me faz acreditar ainda mais na potência da relação afetiva com os filmes e como a experiência com a imagem em movimento convoca nossos corpos e sentimentos. Para ele (e para muitos) a imagem deve ser algo conhecido e trazer familiaridade, conforto, remetendo a emoções já vivenciadas antes. Ocorre que o cinema precisa também causar o desconforto,dialogando com o inesperado. E para isso estamos lá. Assim, enquanto fazia o menino aguardar pelo seu filme, de uma forma ou de outra consegui fazê-lo assistir três filmes desconhecidos, imagens que vão se gravar de alguma forma em sua imaginação, germinando novas sementes de olhares e afetos.. Levo então o projetor para o outro lado. Vejo no gesto,no rosto do menino,a alegria de estar incluído na experiência do cinema..Vemos o filme do Saci.Comento sobre Monteiro Lobato e quanto da figura do Saci devemos ao escritor. Imediatamente se estabelece um debate, entre crianças e adultos, sobre nossos personagens preferidos. de repente estamos sentados,lado a lado,em plena sala estar de dona benta, junto a seus netos,ouvindo as malcriações da Emilia e as filosofias do visconde...e a tela do cinema, recém desligada, expandiu-se na memória e nos afetos de todos nós,fazendo-se então coletiva.

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Cinema expandido, afetivo e de lágrimas.

Territórios sensíveis- Enfermaria C-22/07/16

Entrar em um hospital pediátrico, como podem imaginar todos aqueles que, como eu, não pertencem ao universo da saúde, é sempre muito. Torna-se fundamental carregar, bem junto de si, uma dose extra de coragem e outra igual de fé. Sendo assim, uma das primeiras lições que me deram foi de procurar não me apegar em demasia aos pacientes, sob risco de sofrer junto com eles e dessa forma, inviabilizar meu trabalho na enfermaria. Hoje, um ano depois, devo dizer que falhei miseravelmente na função. Desde a primeira entrada, na enfermaria das crianças com câncer, foi impossível não me sensibilizar com cada rosto, com seus olhos, inquietos e curiosos, ou suas mãos, empenhadas em interferir na projeção ou adivinhar alguma emoção diferente no meu rosto, tentando detectar medo ou enfado. Quase sempre consegui refrear meu instinto de sair correndo, cada vez que via uma criança chorar de dor ou ser submetida a um tratamento doloroso. Para piorar a situação, tenho uma aversão profunda (que beira o mal estar) a sangue e em alguns dias busquei na projeção um ponto fixo para tentar ignorar o que ocorria no hospital, procedimentos rotineiros para qualquer um que trabalhe lá, menos para mim, obviamente. Nesses primeiros dias, me lembro vivamente de uma menina, linda em seus 11 anos, que me olhou nos olhos e me disse,com tranquilidade: “Minha doença não tem cura”.Mantive o rosto tranquilo e continuei a conversar com ela, mas , ao chegar em casa, precisei ficar por algumas horas no mais completo silêncio, digerindo com dificuldade a profundidade do que ela me dissera. E então veio o contato com Kauã. Nem nos meus sonhos mais loucos eu sonharia conhecer no hospital uma figura tão forte e tão diferente quanto meu pequeno cineasta. Vindo já de um longo período de atividades com a equipe do CINEAD, a presença do cinema para ele já era algo rotineiro. Portanto, minha presença lá não era de modo algum diferente do que ele já vivia rotineiramente. A transformação, violenta e profunda, ocorreu em mim.Apesar de conviver com crianças da idade dele, eu nunca conhecera uma com uma capacidade imaginativa tão grande e um universo tão expandido, principalmente dadas as condições em que ele passava seus dias. Em pouco mais de 2 metros quadrados, todas as paredes do seu leito eram cobertas de desenhos, bonecos de dinossauros (seus preferidos) e, mais recentemente, figuras do jogo Minecraft. Naquele pequeno espaço ele jogava, desenhava, assistia a filmes, lutava contra monstros, atravessava pântanos e fugia de dinossauros. Foi ali que comecei a acompanhar suas aventuras e me surpreendi com a sua capacidade de contar histórias. Nada parecia ser novo para ele, que conseguia compreender todos os elementos do cinema (roteiro, direção, elenco, arte, cortes) quase sem que precisássemos explicar. E não de qualquer tipo de cinema, mas dos grandiosos,espetaculares, em que seu filme era exibido para multidões e a história tinha milhares de efeitos visuais. Não era necessário, contudo, muita coisa para que ele criasse suas histórias. Precisávamos apenas dar-lhe a deixa e ele se erguia de um salto, criando universos pela ponta dos seus dedos, nos explicando detalhadamente como seria cada coisa. E voava, ultrapassando as barreiras de sua condição física. A única coisa que conseguia interromper seu voo era ser obrigado a passar por algum procedimento invasivo. Ali, o mesmo sujeito expansivo, cheio de ideias, sorridente,voltava a seu tamanho normal e sua imaginação infinita retornava ao seu corpo franzino. Em muitas vezes assisti a esses processos, em que o menino se encolhia em seu leito e nada o fazia sair de lá. Nesse momento, respeitávamos seu silêncio e recolhíamos o material. Nas últimas semanas tive a sorte de encontrar-lhe no ápice de sua energia, quando aceitou fazermos mais um filme dele, com direito a elenco e figurino. Foi incrível vê-lo atuar, dirigir, roteirizar, marcar o elenco e pensar em efeitos visuais, “tudoaomesmotempoagora”. Desse dia, a imagem que ficou gravada na memória foi dele, em pé na cama, olhando para a janela e me dizendo que queria filmar uma história do homem aranha, para poder escalar os muros do hospital. Imediatamente me peguei rezando para que ele criasse super poderes e voasse imediatamente dali. Vídeo gravado chego hoje no hospital, laptop em punho, para editar o filme com ele. Já o imaginava sentado ao meu lado determinando cada detalhe do filme e opinando em cada coisa, como era bem o seu jeito. Passei pela enfermaria, não reconheci o leito, caminhei por todas as salas, até ter coragem de entrar na dele e perguntar: onde está o Kauã?O breve intervalo entre pergunta e resposta foram para mim extremamente dolorosos. E então recebo a maravilhosa notícia de que ele fora transferido para um hospital em outro estado, para tentar um transplante de medula. Enquanto eu tentava absorver essa novidade inacreditável, imagens da última gravação passavam pela minha cabeça,junto com a lembrança de seu desejo de voar. Nessa hora,em que eu tentava inutilmente lidar com as lágrimas, percebi o quanto eu fora afetada pela convivência com Kauã, por suas intervenções e observações essenciais,suas histórias maravilhosas e seu desejo de ir além dos muros, no espaço físico do hospital.Pude então entender, na carne, a ideia de experiência sensível, que não afasta campo e pesquisador.Em cada momento da minha vida eu levava a experiência com Kauã,fazendo-me crer na importância do cinema e na necessidade de sua expansão, muito mais do que apenas um dispositivo técnico, mas essencialmente afetivo. Para poder compreender isso, foi necessário mergulhar, sofrer e me sensibilizar com o cotidiano das crianças no hospital e me apaixonar profundamente pela pessoa incrível que me mostrou infinitas maneiras de expandir o cinema (e a mim mesma), para múltiplas mídias e diversas linguagens e formas. Foi necessário principalmente me posicionar como pessoa, muito mais do que como pesquisadora, deixando que o corpus me escolhesse, em vez do contrário. Nesse percurso, hipótese, métodos, recorte, tudo foi varrido pela profusão de lágrimas que me toma nesse momento. Ante o devastador efeito do afeto, não há teoria que dê conta da vida.

terça-feira, 19 de julho de 2016

Reiventando velhos truques na cartola do cinema

Territórios Sensíveis-28/06/16- Cinema no HU Se há uma palavra que define de modo preciso a experiência do cinema no hospital ela é: imprevisível. Portanto, para adentrar uma enfermaria é preciso ter algumas cartas na manga.De preferência,várias.Ocorre que hoje,infelizmente,eu não tinha. Cheguei então com apenas um pendrive no bolso e a crença de que tudo funcionaria bem. Só não contava com a alta de dois pacientes logo na minha entrada,justamente na única enfermaria disponibilizada pela equipe de enfermagem. Como os dois pacientes manifestaram vontade de assistir aos filmes, me dispus a exibir um curta de animação, Tolerância. A recepção foi maravilhosa e até quem disse que não tinha vontade de assistir filmes parou para ver e comentar. No final, com os pacientes entusiasmados, falamos um pouco de técnicas de animação e então um dos meninos que aguardava a liberação de sua saída me lançou a seguinte pergunta: “Não tem mais não?”Ora, eu não contava com tal pergunta, pois havia me preparado para a exibição de uma longa metragem e tinha como plano B apenas os quatro míseros minutos do curta e mais nada!Então, ansiosamente, comecei a buscar algo no acervo do CINEAD e me deparei com cinco fragmentos do maravilhoso Mèliés, alguns, devo dizer bastante e compreensivelmente deteriorados. Qual não foi minha surpresa ao ver que não somente o menino adorou o filme, como pediu mais.E outro.E mais outro. E ainda um. E, no final,quando só me restava apenas um filme na manga, ele me disse:”Puxa,que pena!Adorei”Aproveitei o gancho e comentei sobre os processos criativos de Mèliés, da mise-em-scene, as trucagens, o stop motion.O menino, empolgado, pediu mais filmes parecidos para ver em casa e agradeceu muito as informações. Saí do hospital pensando sobre como a experiência do cinema pode ser tão imprevisível que, quando menos esperamos, a magia acontece, à nossa revelia, sem que tenhamos absolutamente nada a ver com o que ocorreu. De repente, olhos grudados na tela, o rosto mais impassível é tocado pela superfície porosa da imagem, por suas ranhuras, seu silêncio entre planos, pelo que falta ou excede na história. Se ficarmos bem atentos é possível perceber em cada músculo do rosto a transformação que se espalha pela pele,quando o sentido do filme se faz e se torna,inevitavelmente, encantamento.

sexta-feira, 8 de julho de 2016

A incrível batalha de Kaua Craft contra o Malvado Helobrine ou:de quantas formas é possível voar?

Hoje é dia de filmagem?É sim, senhor. Como fazer então, se não há roteiro, técnico ou literário?Para nosso pequeno cineasta, isso não é problema. Assim que chego no hospital ele saca do lápis e rabisca sete planos (deveriam ser cinco,mas ele quis alguns a mais) e ainda pensa numa cena final, pós-créditos. Bem no esquema dos Avengers. Só que nesse caso, estamos falando do universo quadrado do Minecraft, amado por 20 entre 10 meninos por aí. E é nesse universo onde assistimos a criação da história de Steve e Kaua Craft, ali mesmo, na hora. Planos, enquadramento, mise-en-scene, tudo é acertado no calor das filmagens, enquanto o elenco, pacientemente, aguarda sua vez de entrar. Muito em segredo, o diretor confessa que tinha vontade de fazer o papel do Homem Aranha, para poder escalar as paredes do hospital, fazendo essa pobre assistente de direção sorrir pela primeira entre muitas, durante a gravação. Roteiro escrito, atores prontos, ops, não, antes o diretor teve um momento estrela, reclamando que a cenografia não havia trazido o boneco do porco como deveria e que o figurino do ator não estava de acordo com a palheta de cores determinada por ele.Ou seja, a direção de arte errara feio.Ante nossas desculpas, ele se convenceu de que seria melhor filmar com o que tínhamos e nos fez prometer que o próximo episódio da série(porque afinal de contas seu filme seria o longa metragem de uma série) haveria o que chamou de hologramas, com efeitos visuais que simulassem os ambientes do jogo.Não pegava bem afinal que o super Kaua Craft, detentor da poderosa espada de diamante, estivesse ali, num mero hospital. Convencido de que faríamos o possível para que suas demandas fossem atendidas, ele pediu a cadeira de diretor, ajustou a altura da câmera, determinou a entrada dos atores e correu para atuar, porque não basta ser diretor e roteirista, queria estar em cena também. Sempre é bom lembrar que nosso pequeno cineasta está preso 24 horas por dia a um aparelho que o alimenta e, consequentemente, o mantém vivo. Quando o movemos para que possa chegar até o local de filmagem, inclusive, o equipamento apita, ruidosamente. É nosso diretor que mexe nos inúmeros botões da máquina e a silencia, sem deixar de prestar atenção por nem um segundo ao que se passa no set. Uma vez na marcação, ele se vira para mim e diz: “Luz, câmera,ação!” Seus atores, contudo, não sabem quais suas falas!Ele não se perturba. - Improvisem,ele diz! Em um minuto gravamos quase todas as cenas, menos uma, a da entrada da personagem arqueira. Só há um problema: não há um arco na enfermaria. Sem se abalar o diretor-roteirista-ator se torna um produtor de objetos, transformando sua espada em um arco bem razoável. Todos a postos novamente, ele se posiciona próximo a claquete, e diz:-gravando! É incrível como seu corpo franzino se agiganta enquanto está de frente para as câmeras. Ele se torna, em segundos personagem e diretor, determina a ação, comanda tudo!E temos então, mais uma cena gravada. Agora é hora de combinar os detalhes da edição, mas antes de tudo o diretor quer ver o material bruto gravado e reclama bastante do som. Deixamos claro que é apenas efeito da câmera e então, enquanto ele viaja por outras histórias, uma das enfermeiras pede para coletar seu sangue. Automaticamente o diretor se torna menino e o menino se torna paciente, que vai sentar muito quietinho ali na cadeira, enquanto se faz o procedimento solicitado. Depois de finalizada a coleta de sangue ele cansa, não quer mais brincar, pede que o levemos de volta para o leito. Ante tantos papeis desempenhados, não poderia ser diferente mesmo. O diretor se recolheu aos seus aposentos, aos seus jogos, a seu mundo colorido. O que ele talvez não saiba é o quanto coloriu o nosso mundo, todos nós que participamos da filmagem, no momento em que permitiu que compartilhássemos suas fantasias. Enquanto caminhávamos pelo corredor, já na saída, pude perceber que nossas capas de heróis continuavam ali, permitindo-nos, por alguns momentos, voar junto com ele.

sábado, 2 de julho de 2016

No território sagrado da infância

Territórios Sensíveis- Reunião mensal Hanseníase-13/06/16.HU





Com o prosseguimento das atividades no Hospital universitário, fui convidada a participar de uma reunião dos pacientes de Hanseníase. A ideia era sensibilizá-los para a questão do cuidado de si. Então escolhi,através da maravilhosa plataforma Videocamp,o filme Tarja Branca.Para quem não conhece, o filme pensa sobre a importância do ato de brincar,para a formação de crianças e adultos (sim,adultos) , mais conectados com sua essência e, definitivamente mais felizes. O filme segue o manual dos documentários mais comuns, com entrevistas entrecortadas por imagens.O que o diferencia,além da cuidadosa direção de fotografia, é que ele mergulha de cabeça no território sagrado da infância, resgatando nossas memórias mais profundas,algumas dolorosas e outras profundamente felizes,mas todas inesquecíveis. Até a última meia hora do filme os pacientes acompanhavam com algum interesse, mas um pouco dispersos. Devido ao tempo curto,fiz um corte até os últimos 20 minutos, onde a temática se alterna.Em vez da importância da brincadeira no horizonte das crianças, fala-se de como é essencial conservar,na vida adulta, a capacidade de brincar. E então todos os entrevistados falam,emocionadamente, das crianças que foram e ainda são E das imagens que guardam da infância. O que diriam essas crianças,para os adultos que eles são hoje?É aí que a emoção fala mais alto, os olhos brilham e os rostos se contraem,tentando segurar o choro. Por vezes,é uma tarefa impossível de se executar.Então vemos meninos e meninas,em seus 40,50 e 60 anos, transformados,pela simples lembrança das crianças que foram e ainda são.Assim também foi na sala do H.U. Ao final do filme, muitos estavam emocionados .Outros sorriam sem parar e outros ainda,tinham o olhar perdido na infância que tinham acabado de revisitar. A todos propus que voltássemos em nossas memórias e contássemos do que mais gostássemos de brincar.Assim foi.Em um relato coletivo,cada um de nos contou aquilo que mais nos fazia feliz e foi com muita alegria que reconhecemos no relato do outro aquilo que também nos dava prazer em brincar. Em pouco tempo um grande falatório se iniciou. Enquanto trocávamos impressões e relatos, nossas memórias se tornavam coletivas,compartilhadas no breve espaço da sala. E então perguntei, finalmente,se brincávamos ainda do que mais nos fazia feliz quando éramos meninos. Percebi que muitos de nós usávamos de estratégias para continuar a brincadeira,perpetuando-a em nossos filhos e netos, na desculpa do lazer ou do esporte. No fundo,nosso objetivo não era nenhum outro além de continuarmos a manter ao nosso lado, por todo o tempo que fosse possível,os meninos que éramos, correndo descalços pelo quintal,afundando nossos pés na areia fria da praia,sentindo a onda bater em nossas pernas ou buscando as bolhas de sabão que criávamos,apenas porque são belas e nos faziam felizes. Emocionada, a organizadora do evento,como muitos,perdera a voz em algum lugar de sua memória,e quase não conseguia falar. É incrível como a infância nos fragiliza quando a deixamos de lado e como pode, ao mesmo tempo, nos fortalecer, quando a usamos como potência para sermos os adultos que buscáramos ser há muito tempo atrás. É na curiosidade e sensibilidade infantil que deveríamos todos manter nossos pés firmemente plantados,para não esquecermos nunca da responsabilidade de ver o mundo com olhos de criança,em constante aprendizado e igual encantamento.

Trilha sonora do texto: Nuages. Dreamns

O pequeno cineasta das cores-IPPMG-0101716

Diz-se de educação que é um processo longo, demorado, através do qual, com muito esforço se consegue adquirir maior senso crítico e, com alguma sorte, uma sensibilidade maior no olhar para o mundo. Pensando dessa forma,a possibilidade de construir um olhar refinado para a expressão artística deveria ser um caminho demorado, ainda mais em se tratando de uma arte tão elitizada como o cinema. Entretanto, o que poderia explicar o arguto olhar do nosso pequeno cineasta que, diante de uma ideia, uma simples proposição, começa a construir, diante de nossos embasbacados olhos, uma narrativa cheia de detalhes, com personagens, figurino, mise-em-scene, marcação de atores, efeitos visuais, do alto dos seus nove anos?De onde saiu essa percepção, se ele, como, aliás, fazem a grande maioria dos meninos de nove anos, não faz nada além de assistir a filmes, jogar seus jogos, passar sua tarde com seus brinquedos?A única coisa que o faz diferente de muitos dos meninos de sua idade é que ele não passa suas tardes no conforto de sua casa, mas na enfermaria infantil de um hospital universitário, conectado a uma dezena de equipamentos que o mantém vivo. Não fosse isso, talvez ele fosse o primeiro cineasta de menos de nove anos dos pais. Não fosse isso,talvez não tivesse o olhar acurado que o faz muito maior que qualquer um de nós.Quando chego ao hospital ele está sentado no corredor da enfermaria, onde o colocaram para que faça diálise.Dali,de onde está,ele contempla o mundo.E é ali que o encontro.Ele me olha de lado,responde laconicamente minhas perguntas,como se minha presença ali não tivesse a mais mínima importância.Até que lhe falo de minha ideia, filmar uma história dele.É então que os olhos brilham e o rosto se transforma completamente.Em instantes,ele começa a me falar de sua história, com personagens saídos de um jogo pelo qual é apaixonado.Olhando os três alunos que estão na porta da enfermaria, ele determina,enfático: “vocês vão participar também“. Logo determina os personagens, o figurino e a participação de cada um. É tão detalhista, que enfatiza as cores exatas e a combinação. Enquanto os alunos seguem encantados com tão inesperada ação, ele continua, dizendo que quer hologramas em seu filme, que devem aparecer em cenas específicas.
- E eu?Pergunto.
-Você vai construir um boneco para mim, um quadrado, com caixas de papelão. É fácil de fazer”, ele me diz, convicto.
Eu pergunto se ele não quer ver o filme que trouxe para ele, para fazer um exercício de contar histórias em cinco planos.A razão da escolha foi o insistente pedido do menino para que trouxéssemos histórias de suspense para ele e a predileção por filmes de monstros, particularmente dinossauros ferozes, como o T-Rex.Ele olha o filme(Noiva cadáver,de Tim Burton) e me diz:
- qual é a historia?
-è uma historia de amor, mas essa é diferente.
-Por que?
-Porque a menina está morta.
Ele me olha e diz:
- Deve ser coisa de zumbi, né?Não quero não. Tenho medo.gosto dos outros,esse não.
Recolho humildemente meu DVD e combino que ele vai pensar na história para semana que vem, quando filmaremos. Explico que se ele não pensar nas cenas,não teremos como filmar e que seu elenco estará pronto na semana que vem.Ele ri e diz:eu vou fazer!
Tinha sido um dia bastante difícil, inclusive porque não conseguimos ver o filme pretendido, pois os equipamentos não estavam disponíveis. Contudo,aquele breve papo,na organização de uma filmagem,me fez sair do hospital com inúmeras ideias e infinita esperança.Que poder era aquele,componente inexplicável, que poderia fazer um menino de nove anos, que passa os dias atrelado a um aparelho, continuar sonhando, colorindo tudo que toca com seus olhos,ávidos por criar?Quais seriam os caminhos possíveis pelos quais fortalecer essa capacidade incrível de criar um mundo apenas porque dessa forma ele acredita que possa ser?Em poucos instantes, ele nos enredara a todos nas tramas da sua história, tornando nossas mentes e corações, senão mais jovens, infinitamente mais coloridos.
Trilha sonora: Nuages- Machine

terça-feira, 21 de junho de 2016

Em busca da Terra do Nunca

Territórios Sensiveis- Cinema no Enfermaria 9 A 33 24/05/16



A ação de exibir um filme em uma enfermaria envolve, entre outras coisas, um exercício de sensibilidade. Mais do que isso,envolve compreender o tempo das pessoas e perceber que muitas vezes, o cinema será uma experiência agressiva e invasiva, tanto quanto podem ser as práticas médicas. Por isso, há sempre a preocupação, na escolha dos filmes, de conseguir contar uma história (através das imagens) que possa sensibilizar os olhares em um ambiente em constante modificação. Nada disso é novidade. A questão peculiar, no dia de hoje, é que uma das senhoras está sentada na cama e, apesar de muito próxima à “tela”, passa a maior parte do tempo de cabeça baixa, como se evitasse olhar para o filme. O filme escolhido para o dia chuvoso e o friozinho que invadem o HU é Em busca da Terra do Nunca. A ideia era, assim como no filme, criar um diálogo entre o ficcional e a realidade, tensionando-os e propondo um exercício de imersão no universo fantástico de J.M. Barrie, autor do maravilhoso Peter Pan. Ocorre que (sempre é preciso lembrar) que estamos em uma enfermaria. Logo, as possibilidades emissivas são,infelizmente.muito reduzidas. No dia em questão, há muito pouco silêncio, na verdade e mesmo o encantamento e o pó de pirlimpimpim de Sininho não são suficientes para fazer a magia acontecer. Por alguns momentos me parece que a descrença de Michael, o sensível e reativo filho de Sylvia e inspiração do Sr Barrie para compor Peter Pan, tomou a todos da enfermaria e não é para menos. Há pacientes graves, senhoras que dormem quase o tempo todo e uma das pacientes, já citada anteriormente, mesmo sentada de frente para a projeção,insiste em não olhar para o filme. A história se desenrola na “tela” e seguimos sem grandes evoluções. Até a cena em que Barrie leva a peça de Peter Pan para a casa de Sylvia, pois a mesma, em estágio terminal de câncer, não consegue mais se levantar da cama. Enquanto personagens fantásticos e música invadem o cenário, do lado de cá a mesma senhora que passara a última hora de cabeça baixa, ergue o rosto e, finalmente, contempla a tela. Consigo adivinhar em sua expressão, o conflito entre o desânimo e a surpresa, enquanto segue atenta o desenrolar da história. Percebo então que alguns outros rostos se modificam, ante o cenário lúdico que se apresenta.Por alguns momentos Neverland se torna mais próxima de nós. Sigo a transformação do ambiente e, de repente me lembro do final do filme. Logo após caminhar em direção a Neverland, Sylvia morre. Achei por bem que, no cenário de exibição do filme onde estávamos, tal cena seria desnecessária e cortei o filme nesse momento. Usei aqui do argumento de Eisenstein (e tantos outros) sobre o sentido do filme estar na montagem, nos cortes que se faz. Qual seria a lógica então de, em uma enfermaria geriátrica, em que se negocia arduamente com o tempo todos os dias, trazer a representação da inevitabilidade da vida, após finalmente conseguirmos entrar em contato com a fantasia?Melhor seria (como foi de fato) caminhar em direção a Neverland e não voltar os olhos para trás, tentando perceber, no cinza do cotidiano, elementos para que possamos, em alguma medida, tentar voar. A imagem da Terra de Peter Pan perdura nas fantasias que nós, adultos, teimamos em deixar para trás, crendo que é na garantia da seriedade e frieza que está o componente que nos fará bem sucedidos e felizes. E enquanto estamos ali, tentando parecer fortes o menino que habita em nós segue em silêncio, tentando subir na beirada da cama para arriscar um voo. Se o deixarmos livre, ele se esticará a tempo de receber a dose diária de pó de pirlimpimpim e conseguirá sobrevoar o quarto até, quem sabe, sair pela janela. Muitas vezes, ao menor sinal de barulho ou crítica, surpreendemo-nos sobre a beirada da cama e pensamos:o que diabos estamos fazendo aqui? E voltamos para o conforto do chão. E enquanto isso, ali perto, a janela permanecerá a vida toda aberta, esperando um momento de distração.

terça-feira, 7 de junho de 2016

O dia em que Audrey Hepburn visitou o hospital universitário.

Territórios sensíveis-31 de Maio de 2015. Cinema no HU. Enfermaria 9A 33





A tarefa de escolher filmes para a exibição em enfermarias pode ser inglória. Nunca sabemos quais histórias realmente chamarão a atenção dos pacientes e por quanto tempo. Arrisco a dizer que o tempo de fruição não pode ser ,de modo algum, comparado com qualquer outra experiência fílmica.Há,para começar,a constante desorganização da “sala de exibição”, entre visitantes, pacientes e profissionais de saúde. Também há o estado dos pacientes, por vezes desanimados e cansados a ponto de dormirem, quase todos, deixando essa exibidora sozinha a ver o filme. Por vezes o desânimo também me toma.Por isso, todos os filmes têm que reunir componentes visuais e sonoros que possam captar a atenção rapidamente,antes que se distraiam. A escolha dessa semana foi então Bonequinha de Luxo, da inesquecível Audrey Hepburn. A começar da sequência de abertura, em que Audrey passeia pelas vitrines da Tiffany´s, com o belo acompanhamento musical de Moon River, o filme prometia ser um sucesso. Não foi. Havia quem não quis se nem ver, outros concordaram a contragosto com a sessão de cinema.Apenas duas senhoras pediram que eu continuasse.Em dado momento,ninguém olhava para a tela e algumas pessoas,compreensivelmente, dormiam.Quando 10 visitantes chegaram ao mesmo tempo decidi interromper a sessão e fui automaticamente inquirida por duas pacientes: “Parou?Ah!Sem problema, já valeu a pena. Obrigada! “Saí da enfermaria pensando que o tempo do filme e seu recorte, nesse caso, não necessariamente são definidos pelo exibidor ou pelos produtores/diretores da obra. Ali,em um ambiente em constante desarranjo, a experiência fílmica é transitória, tem sua temporalidade particular obedece a lógicas internas muito peculiares.Contou não é ,de modo algum,menos intensa.

O dia em que não teve filme

Territórios sensíveis-Maio de 2015. Escolas ocupadas.Meier. Aos que pensamos que as artes e, principalmente, o cinema, são ferramentas de transformação social, concluir que, por vezes, a arte não dá conta de transmutar a realidade pode ser uma dura constatação. Em algumas situações, não basta termos a ferramenta estética no sentido da fruição. É preciso recuar e chegar ao nível da necessidade básica, posto que, quando estas não são satisfeitas,é impossível transcender o real. Essa foi a situação encontrada na escola ocupada que visitamos, menos para exibição de filmes do que para ajudar os meninos que ali estavam. Na véspera,o governo havia cortado o repasse de passagem para os alunos e muitos não podiam comparecer às escolas.Havia falta de água e ,em alguns casos,até luz.O grupo se dividia na imensa escola entre cortar grama,varrer, organizar o pátio e cozinhar. Havia muito que fazer e o abandono da escola era evidente, assim como o empenho de alunos e professores com a recuperação do espaço. Ocorre que um coletivo de pessoas é um coletivo de pessoas.Há quem mande, quem assuma todas as tarefas,quem enrole e quem literalmente não faça nada. Enquanto tento cozinhar três quilos de arroz observo os meninos, em constante negociação e trabalho e penso na importância do cinema em um ambiente como aquele. Naquele momento a arte não faz a menor diferença, para quem precisa decidir se tenta resolver o problema da água ou da comida. Estar junto com os alunos então não se resume a ajudar na organização dos trabalhos, suscitar consciência critica sensibilizá-los e trazer referências estéticas. Não!Definitivamente estar junto significa varrer o chão, mexer o arroz, aparar a grama, trazer um bolo, ouvir a mesma música e rir das mesmas piadas. Quando tudo é escassez, a experiência estética não é complementar ao cotidiano, ela se torna o cotidiano, na medida em que nossos sentidos e sensibilidades devem estar em consonância com o outro, amparando-o em suas necessidades para que possa,o mais rápido possível,voltar a sonhar.

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Territórios sensíveis-ocupar é resistir.

Varrer o chão. Abrir a janela. Dobrar as cobertas.Preparar o café.Arrumar a sala.Passar a chave na porta. Gerenciar os mantimentos. Organizar os livros. Estudar. Bater papo com os amigos.Jogar bola. Essa e outras inúmeras coisas, das que preenchem todas as horas do dia e compõem aquilo que chamamos cotidiano. Essas e outras inúmeras coisas que compõem o cotidiano de uma escola sem muros,uma escola ocupada. Logo na entrada, há o controle de entrada e saída. Não se enganem, não há seguranças contratados.Os próprios alunos controlam quem entra e sai, em um sistema extremamente organizado,principalmente para quem conhece os hábitos de adolescentes. São todos muito jovens e todos têm uma função e sabem da função do outro e à qual equipe pertence. Sim, são muitos, da limpeza à comissão de atividades, passando pela comunicação. Nesses microcosmos adentramos para mais uma sessão de cineclube. Como em qualquer lugar, há que se construir o cenário, ou seja, a sala de exibição e debate. Para isso, será preciso localizar os equipamentos, o projetor e um lugar que comporte todos eles. E por mais que alguns lugares da escola estejam com móveis e equipamentos que dificultam a passagem eles, os alunos, sabem onde está cada coisa.São os donos legítimos do lugar e para entrar em cada escola é preciso que se saiba que ali os donos da casa são eles.Sua legitimidade reside no sentido do pertencimento, pois aquele chão que pisam é o mesmo onde habitam todos os dias, que limpam diariamente, onde alguns dormem e onde se reúnem as vezes. Em cada gesto sobressai o carinho e responsabilidade com que cuidam de toda a organização, com que debatem continuamente para que ninguém se aproveite do trabalho alheio e para que nada fique fora do lugar. Os professores, quando há, dão o apoio e segurança necessários, mas o protagonismo é todo deles. Não pensem que não há balburdia, que não fazem barulho, maravilhosamente fazem. Gritam às vezes,dançam no pátio, perseguem uns aos outros, eles só têm 15 anos, afinal. Mas essa é só a menor parte de um cotidiano permeado de responsabilidades. E em cada rosto não é preciso que se fale para que possamos perceber o quanto amadurecem na experiência que vivenciam. Da nossa parte cabe montar o cenário, ajudar a montar o DVD, a forrar as janelas,arrumar as cadeiras. E esperá-los chegar. Vão entrando na sala aos poucos, sentam,se agrupam,procuram um bom lugar. Como em todos os lugares nos quais faço a exibição de filmes, a experiência do cinema é algo itinerante, cheia de interrupções, conversas, risadas que poderiam incomodar o cinéfilo mais conservador. Mas, se olharmos bem, a seu modo eles estão ali, se apropriando da narrativa, comentando-a, aproveitando o espaço do cinema para construir formas bem próprias de sociabilidade, de estarem juntos. Estamos com 20 minutos do filme quando entra em sala a estrela da festa: ela, a pipoca. Sobraçando um enorme tupperware uma das alunas declara: “sem pipoca não tem cinema”, para alegria geral. E em meio a disputas pela pipoca, comentários e risadas, chegamos ao final do filme. Sentada na última cadeira da sala, penso na importância da experiência desses meninos, no quanto estão formando seu caráter e contribuindo para sua educação e a dos amigos. Educação não aquela, formal, de muros, regras e números, mas a boa, que se faz junto, cotidianamente, na apropriação do espaço e dos afetos, no lugar que se criai pelos territórios sensíveis que os meninos constroem todos os dias. E nessa educação, nós adultos estamos anos luz aquém deles, não chegamos sequer ao maternal.





quinta-feira, 21 de abril de 2016

Territórios Sensíveis- Cinema no HU-Enfermaria 9A – 33 12/04

Quando Michel Foucault falava sobre resistências e sujeições, decididamente seu olhar recaia sobre as relações entre sujeitos, atravessados por “estruturas” sociais. Não é por acaso que muitas obras foucaultianas foram permeadas do objeto hospital e suas particularidades cientificas e sociológicas. Dessa forma, pensar em laços de afeto em um ambiente hospitalar em constante modificação, cercado por rígidas rotinas e procedimentos invasivos e por corpos adoecidos é pensar definitivamente em um ato de resistência. E foi exatamente nas brechas da pesada rotina hospitalar de uma enfermaria geriátrica,que conheci Seu Moacir e Seu Augusto, dois simpáticos senhores de seus 70 anos. Assim que cheguei, logo ficou fácil perceber que Moacir era o porta-voz da enfermaria. Era ele quem se movimentava com facilidade,conversando e chamando atenção de todos que passavam. Foi ele que me perguntou sobre qual seria o filme que veríamos e pediu que passassem Os Mercenários, enquanto Seu Augusto aguardava, em silencio. O filme escolhido era A musica segundo Tom Jobim, documentário musical de 2012.Durante grande parte do filme os dois senhores conversaram sobre as exibições, as músicas,os intérpretes, sempre com grande intimidade e bom humor. Logo, Seu Moacir não aguentou e sentou-se ao meu lado.Começou a falar que adorava filmes western e se eu tinha percebido que o som estava reverberando nas paredes do hospital.Quando perguntei como ele sabia dessas coisas,me respondeu que fora técnico de som por muito tempo e me pediu que trouxesse um filme de ação.Prometi que procuraria Bonanza(Série de tv western da década de 1960-70),conforme ele pedira e traria outros filmes também.Durante todo o tempo da conversa, Seu Augusto,deitado, acompanhava o filme e cantarolava as músicas que eram executadas. A um canto da enfermaria, uma senhora cuidava do marido, depois de me dizer que não podia, infelizmente, acompanhar o filme, pois o companheiro estava muito debilitado. Enquanto isso,profissionais de saúde se revezavam na sala, sempre observando com espanto e alguma alegria a exibição do filme. Parece incrível que, em menos de um mês de internados, os dois senhores já estejam tão próximos, conversando como velhos amigos, mas é preciso compreender em que medida os dois estão em uma situação limite. Afinal, uma coisa é trabalhar ou mesmo visitar um hospital. Outra, bem diferente, é estar preso às suas rotinas por ocasião de uma enfermidade. Na ausência do cotidiano,estabelecem-se novas demandas,atendidas pelas circunstâncias mais adversas e imprevistas.À parte todas as regras, nunca se sabe quando haverá uma emergência a seu lado ou a necessidade de exame ou deslocamento.No descontrole dos corpos, a busca de afeto parece se a única saída para não se perder o rumo.E assim,caminhando um ao lado do outro,Seu Moacir e Seu Augusto resistem,bravamente,com ou apesar do cinema.Por outro lado, trazer filme para o hospital sempre é um exercício de negociação de espaços e de debates .A cada dia é necessário negociar os filmes,o tempo de exibição, a forma como serão exibidos e para quem.Em todos os dias,os pacientes conectam-se ao filme em intervalos irregulares, levantam-se,mexem no celular, atendem suas visitas. Por vezes, apenas eu assisto ao filme. Contudo,tenho aprendido que o mais importante não é o tempo que permanecem conectados à narrativa mas o quanto se apropriam dela para conectarem-se a si mesmos e aos outros.



segunda-feira, 11 de abril de 2016

Cinema como forma de ocupação da cidade-entre sensibilidades e conflitos

Territórios sensíveis- 11/04/16-Projeto Ciclo Cine Afonso Pena


Em muitos contextos falou-se que a praça é do povo, bem e espaço irrevogável para o exercício da cidadania. Assim, ocupá-la seria tornar-se parte de uma esfera pública permeada de negociações e alguns conflitos, alguns, digam-se de passagem, bastante interessantes. Na Praça Afonso Pena,no bairro da Tijuca, não é diferente.A começar pelo acesso, disponível para pedestres,motoristas,ciclistas e ponto de saída da linha 1 do pequeno, simples,mas ainda existente metrô do Rio de Janeiro. Nas noites de sábado, como pude conferir, somam-se aos já citados frequentadores, pipoqueiros, pula-pulas, carrinhos elétricos de aluguel, vendedores de churros e muitas, muitas bicicletas. Aqui e ali, crianças e cachorros correm e lá no fundo um samba engajado desfia seu repertório. Nessa polifonia de diferentes atividades fica difícil localizar onde seria a projeção do Ciclo Cine. Finalmente encontro uma tela estendida bem perto da saída do metrô e algumas bicicletas aglomeradas junto à equipe, que lidava com as intempéries do sistema de som de seu triciclo audiovisual (http://movimentoconviva.com.br/projecoes-de-bike-por-sp/). Para minha total surpresa, não se tratava de apenas uma projeção, onde a narrativa seria menos importante do que a ocupação do espaço. Afinal, o Ciclo Cine tem uma causa, que é nos convidar a refletir sobre mobilidade urbana e ocupação do espaço público. Assim, projetam filmes sobre movimentos de ciclistas ao redor do país e na América Latina. O engajamento extrapola a tela, pois os participantes vem à praça em suas bicicletas, combinam encontros e buscam convidar outras pessoas para participar dos passeios e mobilizações. Enquanto converso com uma participante que, voluntariamente, me conta que costuma ir de bicicleta da Central do Brasil ao Leblon (!) o filme começa. Estamos todos sentados em cangas, no meio-fio,na grama, apoiados nas bicicletas ou mesmo em pé. Aqui e ali, cada um encontra sua forma de habitar, deitando no chão, tirando os sapatos e até abrindo garrafas de vinho, como uma forma de potencializar a experiência estética e coletiva em suas mais diversas formas. No passeio da praça muita gente passa e interrompe seu percurso para observar o filme, ou mesmo para interferir na tela, seja projetando sua sombra ou tentando chamar atenção pelo barulho de bicicletas e carrinhos. É muito interessante perceber o quanto aquele espaço se torna um microcosmos da própria narrativa dos filmes. Enquanto na tela ciclistas de Montevidéu caminham pelas ruas da cidade pedindo espaço e direitos de ocupação e circulação, ali na praça bicicletas, pedestres e nós dividimos espaço com enormes carrinhos infantis elétricos, onde pais exaustos se esforçam para segurar seus empolgados rebentos. E, como é de se imaginar, ocorrem conflitos, pela interrupção do áudio do filme, pelo atravessamento da tela por corpos, carros e bicicletas. O espaço público torna-se espaço narrativo, polifônico, onde corpos e veículos negociam seus lugares,intervém na mobilidade de cada um, constroem modos de vida e olhares para a cidade. No interagir torna-se necessário repensar na forma como ocupamos o espaço urbano e nos imaginários que absorvemos e reproduzimos,em nossas práticas e nas práticas que legamos a nossos filhos. Seria apenas um brinquedo ensinar nossos filhos a pilotar veículos, em detrimento de acostumá-los ao exercício de pedalar pelas ruas, ocupando-as e ressignificando a forma de estar no mundo?Que tipo de educação dar a eles, quando lhes incutimos desde cedo a tarefa de manipular grandes máquinas motoras onde estarão quase sempre solitariamente atravessando a cidade?Também eu não tenho a resposta, pois também fui criada para vincular minha emancipação à habilidade de conduzir um veículo automotivo, muito mais do que uma bicicleta. Mas ali,compartilhando o espaço com aquelas pessoas, me senti maravilhosamente sendo sacudida por outras formas de pensar, que fatalmente me farão refletir sobre muitas outras coisas e , quem sabe,a tomar atitudes em relação à forma como me desloco no mundo. Mais do que uma experiência estética no sentido da fruição, a projeção de filmes do Ciclo Cine tornou-se sensível pela força com que me levou a refletir sobre mim, sobre minhas escolhas e representações. E tal fato só ocorreu, imagino eu, posto que a tela do cinema ampliou-se para abarcar a praça, transfigurando-a em espaço político, de compartilhamento e negociação de formas de estar no mundo.








terça-feira, 8 de março de 2016

Dia das mulheres. No cinema. E em qualquer lugar. Em cartaz: Malala

Territórios sensíveis-Cinema no HU. 08/03/16. Enfermaria 9A 37







Se o feminismo veio na mamadeira de muitas de nós, não deveria ser difícil pensar em um filme para exibir nesse dia tão importante, certo?Errado! Ao receber a tarefa de escolher um filme para exibir hoje entrei em parafuso, pois as opções, sendo inúmeras, indicavam cada uma um caminho diferente. De imediato, As sufragistas foi minha escolha principal. Seria ótimo exibir esse filme hoje em uma enfermaria cheia de mulheres. Infelizmente não foi possível baixá-lo ou comprá-lo a tempo. Estava bem desanimada quando me deparei com o Documentário Malala, indicado ao Oscar de 2016. Levei-o. Ainda na chegada à enfermaria percebo que o local esta ocupado com muitos internos realizando procedimentos. Espero uns 40 minutos até que a aula acabe e possamos iniciar. Como hoje a sala estava muito mais clara do que de costume, optei pelo áudio em português em vez da legenda, para tentar captar melhor a atenção do público. Tal estratégia parece ter sido bem sucedida de início, se levarmos em consideração que quase todas as pacientes prestaram atenção logo de cara no filme. Ocorre que uma exibição em uma enfermaria é uma exibição em uma enfermaria. Em um hospital universitário, ainda mais. Há que se abstrair o calor, a luz, o barulho e as constantes interrupções no filme. Durante toda a sessão, as pacientes prestam atenção por alguns minutos, depois levantam-se, vão ao banheiro, mexem no celular, tiram um cochilo.Hoje,pela primeira vez, compreendi melhor essa dinâmica e, em vez de me sentir desanimada e propensa a desligar o projetor mais cedo, apostei em exibir o filme até o final. E então, como geralmente acontece, a magia da narrativa se fez. Começou devagar, com os já costumeiros “olha, cinema, que legal”, de quem passava no corredor. Depois, com uma das acompanhantes reconhecendo a figura de Malala e sua história. E, um pouco depois da metade do filme, fui chamada por uma outra acompanhante que,silenciosamente, puxou sua cadeira para mais perto da “tela”, assistiu um bocado e me falou,pensativa:”essa menina, nossa, ela se parece com Ester,você conhece a história dela?”. Ante a envergonhada negativa, ela me contou que Ester, a da Bíblia, tinha sido uma mulher muito corajosa,que também enfrentara injustiças e que lutara por seu povo, assim como Malala. Ao seu lado, mais duas acompanhantes concordaram e (enquanto o filme corria) começamos a falar sobre a situação das mulheres paquistanesas, a semelhança com nossas mulheres no Brasil e como Malala havia sido corajosa de enfrentar tamanha violência. E então, juntas, concluímos: ela sobrevivera para contar sua história, para levá-la aos quatro cantos do mundo, para quem quisesse ouvi-la, mesmo uma longínqua enfermaria pública nos trópicos. Enquanto isso, a paciente, mais nova, que não aparentava ter mais de 20 anos, acompanhava atenta todos os detalhes do filme, mesmo com sua cama rodeada de visitas. Filme terminado, perguntei se gostaram. “Sim, muito”, foi a resposta geral. Comentei que a intenção fora mostrar um filme em homenagem ao dia de hoje. Todas aprovaram a escolha e, no final, ainda ouço o seguinte comentário de uma acompanhante, relacionando o dia de hoje ao filme e à coragem de Malala: "porque hoje mulheres não são mais dependentes, só quando querem..Mulheres fazem tudo e são ainda mais fortes...". Saí de alma lavada e passada(como diz uma amiga)... O dia de hoje, mais do que aquecer o coração para uma empatia necessária entre mulheres (não só hoje como sempre) me fez pensar no lugar do documentário na enfermaria. Mais que um entretenimento, o cinema hoje foi absolutamente comunicacional, como um programa jornalístico que se assiste ou uma transmissão de rádio, levando até as senhoras a história de Malala e fazendo-as refletirem e debaterem. Mais do que isso, na identificação com figuras femininas houve a conexão necessária para que se colocassem como parte da narrativa. E essa ligação não estava relacionada com o ato cotidiano de assistir o filme do começo ao fim, mas de ser definitivamente tocado por aquela história. Dessa forma, o cinema hoje foi uma janela para que o mundo pudesse entrar na enfermaria e ser observado, debatido e ressignificado pelas pacientes. Janela que foi aberta não só por mim, ou pela minha presença na enfermaria, nem tão pouco pelo filme, mas construída no espaço entre nós, o filme e nossa experiência tão coletiva quanto afetiva.

quarta-feira, 2 de março de 2016

Cinema na Rua. Experiências sensíveis e formas de habitar a cidade





Pensar na experiência do cinema é pensar no contato individual com a narrativa fílmica a partir do ambiente escuro, frio e silencioso da sala de exibição, certo? Para o coletivo Projetação essa descrição não poderia estar mais errada. A começar pelo local onde os filmes são exibidos. Há claramente a escolha pela prática do cinema como ocupação de um território, proposta de narrativa que, longe de estar desassociada com o espaço público,intervém, toma posse,ressiginifca lugares da cidade.Assim foi no último dia 24 de fevereiro, na exibição do documentário feito na ocupação de escolas em São Paulo. O filme foi projetado no viaduto de Laranjeiras, entre as movimentadas ruas Pinheiro machado e Laranjeiras, para onde aflui diariamente o tráfego pesado de carros e gente. Isso significa primeiro que o áudio do filme vai ser atravessado pelas mais diversas sonoridades; desde o movimento de pessoas voltando para casa, o tráfego na rua de carros, bicicletas, cachorros e carrinhos de pipoca, principalmente estes últimos. Além disso, o evento reúne apresentação de bandas de música, criação/mostra de textos, pintura e muitas outras atividades acontecendo em conjunto com o filme,até mesmo o próprio filme, pois, além do filme, há projeção de imagens e textos criados na hora na parede do viaduto.Forma-se aí novas narrativas urbanas, circulando do concreto do viaduto ao chão da praça, passando pelo asfalto e pelos carros e ônibus. Em meio a toda essa mistura, chego ao Viaduto e me deparo com poucas pessoas, algumas sentadas no chão, outras confortavelmente instaladas em um murinho, enquanto os organizadores pensam onde vão exibir o filme. Em cima de uma bicicleta está o equipamento, mas os organizadores não têm pressa de montar a parafernália técnica necessária. Ao contrário. Se a ideia é ocupar o espaço, eles se revezam, passeando um após o outro com o equipamento pela pracinha que fica sob o viaduto, até que alguém lembra que é preciso montar a tela, ops, a lona. Enquanto isso, o público que chega ouve um jazz despretensioso tocado pela banda. Tem gente que passa voltando do trabalho, da escola, da padaria e interrompe o caminho para dar uma espiada. Tem gente que chega,senta no chão da praça e tem gente que passa por ali, olha e fica.Caso de um menino de seus 10 anos, provavelmente em situação de rua,que, para ver o filme,que fala de crianças como ele, que ocupam escolas da mesma forma que ele ocupa a praça. Dono da casa, muito à vontade, o menino circula, olha o filme e, por fim, senta do lado dos organizadores, que prometem dividir o dinheiro do “chapéu” com ele. Filme visto, o show continua, com música e pintura, debates e intervenções. Os textos continuam pendurados, em exposição no viaduto.As ilustrações estão impressas no chão da praça. E o cinema, que estava na tela, expandiu-se, multiplicou suas narrativas, ocupou o espaço urbano,fez dele lugar onde os corpos se revezam, constroem recortes, diferentes enquadramentos, propõem montagens e recortes onde a cidade e seus habitantes tornam-se possibilidades narrativas infinitas.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Territórios sensíveis-20/02/16-IPPMG George, o contador de histórias.



Levar a experiência do cinema ao hospital é permitir aos pacientes o contato com narrativas diferentes, novas formas de ver e transver o mundo... Mas é ir além,possibilitando-os, mais do que ouvir e ler, falar. Por vezes, é tudo o que querem. Assim me parece ser George, menino de uns oito anos,esperto como ele só, que anda serelepe pela enfermaria..Junto com Lucas e Thais, George manifesta interesse pelos filmes,mas também,como todos, pede o de sempre.A saber, Velozes e Furiosos.. Explico pacientemente (acho) que vou exibir filmes que ele não conhece e recebo em troca uma revirada de olhos que me faz rir... Equipamentos montados, descobrimos que Lucas adora filmes de terror e exibimos o maravilhoso Histórias assombradas para crianças malcriadas...https://www.youtube.com/watch?v=W32HluLAuuw, que os meninos recebem com algum (pouco) interesse. Logo em seguida, exibimos O Garoto, curta-metragem inspirado no clássico de Chaplin e, para minha surpresa, é muito bem recebido por quase todos, principalmente Thais... George, ao contrário, volta pra seu leito e esconde a cabeça debaixo do lençol....Então resolvo apelar e lanço mão de Ernesto.. Pronto. Consegui!Aos poucos, George consegue ser convocado pela tela e assiste com interesse ao filme. Mais um ponto pro futebol...Ao final da exibição, uma das professoras distribui plaquinhas de classificação para os meninos representarem o que acharam do filme e os três afirmam baterem palmas para Ernesto.. Mais à vontade, George me conta sobre os filmes que gosta sobre o que achou de Ernesto e sobre a menina, Suellen, que dorme no outro lado da enfermaria... Alem disso,observador, conta que Thais e Lucas estavam sentados muito próximos,na exibição de Ernesto..E me pede para eu fazer o favor de passar mais filmes. Escolhemos Picolé, pintinho e pipa e George literalmente “entra no filme” (uma história de meninos moradores de comunidades cariocas)... Ao passo que não tira os olhos da tela, o menino levanta,se aproxima, cutuca os amigos e não para de fazer comentários nem um minuto sequer.Quase no final,um pedido: “tia,pausa aí,pra eu poder ir no banheiro?” Pedido aceito, filme visto,os meninos pedem que eu repita um dos filmes.Concordo e peço que decidam no par ou ímpar. George perde e fica cabisbaixo, mas não comenta nada até o final da reexibição de Ernesto. Então,o menino vem até mim e pede,sorrindo: “pode passar o outro também?”Riso geral.Após o último filme, faço uma brincadeira de planos com todos os pacientes e ,logo depois,me despeço de todos.. Volto pra casa pensando em como a enfermaria se torna um microcosmos de sociabilidade. Cada ator,cada ação,reflete ações e personagens do cotidiano além muros do hospital..Há ali espaço para amizades,namoros e desentendimentos entre os pacientes.... Nesse espaço, propor o cinema pode parecer pouco para tantas possibilidades narrativas. Afinal,há vídeos,câmeras,imagens,todas disponíveis na palma da mão dos pais que acompanham seus filhos ao hospital..A diferença parece estar na memória do cinema,como o espaço da tela grande, que o uso do projetor reforça.Mas não só isso. Quando falamos em cinema remetemos ao compartilhamento de uma experiência, construída no ato de sentarmos juntos em redor de uma tela e fruirmos daquela narrativa. Parece-me que é o contato do outro o componente diferenciador. Da mesma forma, a invasão da enfermaria por uma projeção geralmente causa surpresa e sorrisos.Não é raro que,no momento da exibição de filmes vejamos profissionais de saúde parados do outro lado do vidro da sala ,surpreendidos com a ação. Muitos ficam alguns minutos observando o filme, chamam outros colegas e, momentos depois, voltam a seus afazeres. É nessa suspensão do cotidiano e na ressignificação do espaço em que talvez o cinema no hospital tenha seu componente de fato transformador. Mas, jamais o será tão transformador,pelo menos para mim, do que contemplar os rostos dos pacientes,quando conseguem se deixar convocar pela narrativa fílmica.Sorriso no rosto,concentrados,naquele momento de entrega, vejo claramente a magia do cinema acontecer,diante dos meus olhos.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Territórios sensíveis-16/01/16-Cinema no IPPMG

- “Tia, tem Velozes e furiosos?”





Na primeira sessão de cinema do ano os pedidos não mudaram. Seja qual for a idade, a enfermaria ou o estado de saúde, pacientes e acompanhantes sempre pedem a mesma coisa: um filme blockbuster. Afinal, se levamos o cinema para eles, por que não seria algo que já conhecem? É difícil compreenderem que os filmes do acervo não estão no cinema da esquina, mas foram feitos como instrumentos de uma educação audiovisual que nem sempre os pequenos espectadores estão dispostos a aceitar. Tenho a tendência a conversar com todos sobre suas preferências e percebo que, para a grande maioria, o cinema é como uma televisão em que encontram os mesmos produtos e personagens em um ambiente mais confortável e com pipoca de qualidade. No hospital, em meio à agitação da enfermaria, com frestas de cidade entrando pelas cortinas rasgadas e quando qualquer um pode de repente interromper a exibição do filme, como é possível existir experiência cinematográfica? Enquanto penso sobre essa questão, exibo Príncipes e Princesas, Minhocas e, claro, o agora já clássico Ernesto no país do futebol . É incrível como a temática do futebol vence muros de impaciência e preguiça e convoca os olhares dos meninos. Apesar de emburrado, pois não exibi nenhum dois vários filmes blockbusters que me pediu, um dos meninos (meio a contragosto) assistiu ao filme. No final, quando os créditos são acompanhados pela execução do hino nacional, alguns pais cantavam junto. Mais um imaginário forte a ser trabalhado, esse referente ao patriotismo de cada um. Seria mesmo necessário um signo comum para que houvesse a comunicação?E, havendo comunicação, seria ela da ordem do sensível, ou apenas um compartilhamento temporário de lugares e experiências estéticas?Porque, por vezes há sorrisos em seus rostos, mas seria possível que o sensível os atingisse para além do entretenimento?Tais são algumas perguntas que me faço, enquanto guardo os equipamentos no armário.