segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Territórios Sensíveis-Modos de Ocupação-Cinevila-23/03/17

Sobre ocupar espaços com corpos, imagens, sonoridades, narrativas. Sobre propor linguagens outras, que ressignifiquem e intervenham, atravessem o cimento dos prédios e se sobreponham aos sons cotidianos das televisões e rádios. Assim é a experiência do Cinevila, iniciativa de cinema que ocorre desde início de 2016 na Praça Tobias Barreto, em Vila Isabel. Para o encontro de março o tema não poderia ser outro: o dia das mulheres. Já de início é possível perceber que o coletivo ocupa literalmente a praça. Em fios e caixas de som, cangas espalhadas e caixotes de madeira marcam o semicírculo em volta da tela, que ainda não foi montada. Logo, um varal de fotos é pendurado, com a temática do dia e uma placa, junto à grade indica que ali acontecerá o Cine Vila. Estamos no crepúsculo e, para dar mais bossa ao encontro, pequenas luzes coloridas são amarradas às arvores e espacializam as paredes da sala de exibição a céu aberto. Engraçado pensar como em toda experiência de cinema de rua há sempre o elemento que define os limites do dentro e do fora, como bem identificara George Simmel ao falar da metrópole moderna. Enquanto a tela é ajustada, começa a chegar mais gente, que se espalha pelo chão da praça, como se fossa a própria sala. Não importa que nessa “sala’ existam ônibus, trocadores, carros, motos, dividindo espaço, físico e sonoro, com o som do primeiro filme da noite, que estreia a tela itinerante. O vento move a tela e a tela move a praça, convocando os olhares de quem passa e não conhece ainda o projeto. Aqui e ali, corpos se estendem na esteira, debruçam na janela para ver que som é esse que invadiu a sala e interrompeu a hora do jornal nacional. Ali na esquina o senhor, com o jornal na mão, parou para ver. E se na pauta do telejornal a demanda do feminino ainda não tem o espaço merecido, as caixas de som do Cinevila garantem a entrada do assunto nas varandas alheias. Ainda que não se queira, os moradores da praça Tobias Barreto ouvem a fala sobre abuso, sexualidade, aborto e empoderamento. E se, na sala de cinema, via de regra o público escolhe o que vai ver, no cinema na praça há a presença do público indireto, que é atravessado pelas narrativas sonoras e imagéticas. Assim, debates, ideias, conceitos e afetos cruzam o espaço dos corpos, propondo outras experiências do cotidiano. Texto escrito em 13/11/2017


créditos:foto oficial Cine Vila

Territórios Sensíveis-Modos de Ocupação-Cine Giro 300716

Que toda praça seja um local de cultura. Essa é a premissa do Cinegiro.Elaborado a partir de um edital da secretaria municipal de cultura e unindo dois coletivos de arte, o projeto rodou, ao longo de 2016, em 4 praças da cidade. Acompanhei as ações em duas delas, no Jardim do Meier e no Castelo. Na primeira delas(que conto nesse texto), pude perceber, logo de início, a força da ocupação da praça, quando o cinema está presente. A ação tem como foco música e cinema, unindo debates e comidinhas também e transformando o espaço onde se instalou. Para quem não conhece, a Avenida Churchil, no Centro do Rio é um espaço em que o transito caótico da cidade tem lugar. Por entre carros, motos e ônibus, fica difícil imaginar onde uma tela teria lugar. Ainda assim a boa estrutura do CineGiro se instala e logo espalha cadeiras e barracas pela rua. A ocupação não se faz esperar, ressignificando-os espaços. Logo os participantes começam a dividir espaço com ônibus e motos. E quando as caixas acústicas são ligadas, outro componente vem dar mais uma dimensão à cidade: o som. Assim, as bandas que se apresentam em plena rua criam novas paisagens sonoras, em dissonância com os roncos dos motores dos ônibus. E então começa a exibição e as cadeiras de madeira se espalham em torno da tela, criando uma sala de exibição sem muros, onde os espectadores podem estar a menos de 1 metro de um carro que manobra, enquanto a narrativa fílmica se desenrola ali perto. É possível perceber em cada lugar os elementos de uma sala de exibição, como o sistema de som e as cadeiras, mas também esses elementos se ressignificam na interação com a cidade, com o ranger das portas dos ônibus, os barulhos dos freios dos carros, as luzes dos poucos prédios residenciais. Há quem se sente no chão da rua, no meio fio, sobre os carros, há quem passe e pare por alguns segundos, espantado com a luz da tela. Aqui e ali, o cinema se torna um fluxo contínuo de sons, pessoas e imagens, que se fundem na cidade, criando narrativas em múltiplas dimensões.

Texto escrito em 12/11/17

quinta-feira, 30 de março de 2017

Musicalidades no hospital

Cinema no HU-300317-Enfermaria 1.10 andar.6 pacientes.3 acompanhantes. Mulheres “Mas você vai vender alguma coisa? ” -Me pergunta a paciente, olhos pregados na tela. Recebendo uma negativa, sorri e me faz nova pergunta: - É de graça? Sorrio. Que lindo- ela diz. Na verdade, não é de graça. Cada ida ao hospital me custa ser outra, enquanto pesquisadora e ser humano. Em uma cidade em chamas, como bem colocou Anderson França, cada semana tem seu preço, em tempo, stress e cansaço. Ao mesmo tempo, e torno maior, quando ultrapasso os obstáculos, um após o outro. Para começar, a resistência a oferecer o cinema para quem está em uma situação de fragilidade e dor. Hoje, depois de enfrentar um meigo engarrafamento, viatura incendiada, carros de polícia, etc. (nada além do normal no cotidiano carioca, infelizmente), me deparo com uma enfermaria feminina, onde duas pacientes (por volta de 40 anos), estavam bastante fragilizadas. Uma delas, nauseada, levantava a cada momento. O que fazer, além de oferecer o que elas não tinham, ou seja, o cinema, em áudio e imagem? Dessa vez, mais áudio do que imagem. O filme escolhido, Cartola, cria uma ambiência musical que vai, aos poucos, sendo incorporada à enfermaria. Diante das primeiras notas de Moinho, composição do artista mangueirense , como oferecer resistência? Ainda que a contragosto, as pacientes se acomodam nas macas, viram o rosto para a projeção que, diga-se de passagem, está bem deteriorada, devido à claridade da enfermaria. Mas, diante da música, a imagem se torna supérflua, desnecessária. Ao passo que o filme se desenrola, algumas falas de entrevistados denotam a relação de Cartola com religiões afro, gerando uma ruga de desagrado em duas acompanhantes. O que não as impede de virar o pescoço em direção ao filme, a cada vez que uma música é iniciada. Um da paciente mais próxima de mima mesma que, ao final da exibição, me perguntara se era de graça, acompanhara cada cena do filme com bastante interesse. Ao final da exibição, quando suas visitas chegam, ela ainda comenta que vira um filme de Cartola e que gostara muito. Em geral quem chega, se surpreende e sorri com o cinema projetado na parede. Exceção somente hoje, quando uma das enfermeiras me pediu para baixar o som. De modo geral, funcionários e acompanhantes se surpreendem, alguns perguntando se era som de televisão ou se havia rádio ligado. Até enxergarem o projetor. Mas hoje, com a proposição de Cartola, o protagonista do dia foi definitivamente a caixa de som. Nos intervalos da dor e da espera, as musicalidades foram sendo tecidas, de pacientes e funcionários, filme e realidade. E eu, que sempre me preocupara com a qualidade da imagem, acabara de confirmar uma outra territorialidade possível, do cinema no hospital.





quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Cinema para ver e fazer-Cinema no Hu-21022017-Enfermaria 10b02

No retorno ao HU, a ideia era propor algo novo, que fosse além da já conhecida experimentação com cine-debates sobre e com os filmes. Para isso, pensei no exercício com os Minutos Lumière, propondo que os pacientes façam filmes de até 1 minuto, com câmera fixa, registrando um pouco do universo que os cerca. Até então apenas as crianças pareciam demonstrar interesse com a filmagem, mesmo porque o formato do projeto no HU pedia algo mais leve, menos invasivo e que solicitasse menos a intervenção dos pacientes.É uma dúvida de todos os dias, qual o limite entre o cinema para distração e o cinema como proposta interventiva, que demanda algo mais dos pacientes além da fuga à realidade. Por isso, levar uma câmera para o ambiente da enfermaria era algo novo e arriscado. Mesmo assim, decidi tentar. Carregada com tripé, câmera e o material de costume, entrei na enfermaria onde sabia estarem os pacientes já conhecidos da semana passada, para poder trabalhar. A ideia de escolher os já conhecidos se deu pois pude perceber o interesse destes com o cinema, seja na atenção com que assistiam ao filme, seja na forma como me trataram. Logo de início me apresentei, falei sobre o CINEAD e expliquei que a proposta era levar um pouco de cinema para eles. Cinema para ver e fazer, reforcei. Uma das senhoras, acompanhante do marido, me pareceu um pouco reticente, então perguntei se ela concordava com a atividade e reforcei que ela poderia me comunicar caso o som ou mesmo o filme estivesse incomodando o marido. Ela concordou e comecei a montar meu equipamento, informando que deixaria a câmera montada junto ao tripé. Qualquer um que quisesse fazer seu filme poderia me chamar, mesmo antes do final do filme que seria exibido, no caso A invenção de Hugo Cabret. A ideia era projetar um filme mais palatável, que dialogasse com a história do cinema, mantendo-os conectados ao ambiente de projeção. Assim foi feito. Na primeira meia hora de filme ninguém se pronunciou. Apenas prestaram atenção, com as habituais atividades de levantarem-se às vezes, mexerem no celular e conversarem entre si. Percebo que a surpresa de quem chega e vê a projeção é uma constante. Não há vez em que os que chegam não ergam a cabeça para a parede e perguntem - O que é isso? Tal questionamento reforça a ideia de ocupação de um espaço que não é o do cinema. Arrisco dizer que nem mesmo os corpos estão em seu lugar de origem, pois o desconforto, a inadequação e o incômodo são elementos bastante percebidos também, como parece ser o ambiente hospitalar. Entre os que estranham, há os que pedem para assistir também e há os que notadamente se incomodam. Ontem não foi diferente. Um dos profissionais de saúde, ao entrar na sala e ver o projetor, propositadamente fez questão de se colocar na frente do filme, como se mostrasse que sua tarefa é mais importante e que ele não pode ser interrompido. Por longos minutos, ele fez o possível e o impossível para bloquear a imagem, me obrigando a interromper o filme. Nesse momento, um dos pacientes internados, que estava ausente devido a uma operação, voltou, em sua maca. Informei que pararia o filme e todos concordaram, menos o recém-chegado, que disse preferir o movimento ao silêncio e me pediu para continuar. Assim foi feito. Há poucos minutos eu havia sido solicitada por um dos pacientes, para que fizesse seu filme. Perguntei qual era a ideia e ele automaticamente me informou que gostaria de passar uma mensagem para as pessoas. Como não podia se levantar, aproximei a câmera dele e disse que o fotografaria, para que ele escolhesse qual o enquadramento desejado em seu filme. Assim fiz. Ele demorou apenas alguns segundos para pensar no que dizer e, como se já tivesse o texto todo decorado, começou a falar. Falou sobre seu acidente de moto, sobre como as pessoas precisam lidar com os problemas e terminou com um sorriso. Finalizei a gravação e pedi seu e-mail para enviar o filme para ele. Logo, outro paciente se animou e ficou um tempo pensando no que dizer. Ao final da projeção, ele me chamou e eu perguntei qual as ideias para seu filme. Depois de pensar um pouco, o paciente me disse que só havia um lugar que ele gostava no hospital, que era a paisagem no final do corredor, onde podia ver a Baía da Guanabara e um pouco da Ilha do Governador. Ele me descreveu com detalhes a posição da câmera, (um over shoulder) e como queria a narração. Concordei com ele sobre a beleza da imagem e trouxe a cadeira de rodas, para que se levantasse. Infelizmente, ao tentar levantar, ele não conseguiu, sentindo muitas dores. Ficou extremamente frustrado. Pedi então que, quando ele saísse, fizesse com o próprio celular seu filme e me enviasse. Isso pareceu animá-lo. Os pacientes então pediram que seu filme fosse exibido na enfermaria, o que me fez anotar mentalmente que precisaria levar, nas próximas vezes, um cabo para exibir o filme assim que fosse filmado. A ideia da projeção dos próprios filmes reforça a perspectiva de autorrepresentação, pois afinal se o cinema é feito para distraí-los de sua condição, porque quereriam ver a si mesmos? Há um componente nesse pedido que será necessário investigar. Contudo, para um primeiro dia de filmagens, me pareceu muito produtivo. A presença da câmera realmente mudou os semblantes, captando sua atenção. E o fato de poderem opinar sobre o filme, se querem ou não filmar, pareceu fazer toda a diferença. Em vez de serem eles mesmos o objeto do filme, tornam-se sujeitos na medida em que podem contar suas histórias, da forma que preferirem. E eu, que hesitara tanto tempo em levar a câmera, temendo acentuar a invasão, o incômodo, pude perceber que, quando se estabelece um combinado, os pacientes ficam mais calmos e entendem que cabe a eles a escolha. O que parece haver de diferente nesse caso é que a prática do cinema não invade seus corpos à sua revelia, como as rotinas de saúde às quais são submetidos. Ao contrário. Podem (e por vezes dizem) não a qualquer ação minha, sem hesitar. Pude perceber também que o espaço cotidiano e o compartilhar da dor é o que os une, não sendo ainda o cinema algo muito diferente de qualquer outra atividade, no que diz respeito aos vínculos criados. O que diferencia o cinema parece ser ao grau de surpresa, de ineditismo da prática naquele ambiente, que os faz ficarem mais próximos, curiosos e temerosos em igual medida. A presença da câmera, dessa vez, não convidou à conversa sobre o filme, mas ao próprio ato de filmar. Quando contam suas histórias, igualam-se, para eles mesmos e para mim. Não me importa saber quem são, o que fazem, suas idades ou funções na sociedade. Ali, dentro do hospital, são destituídos de seu lugar na sociedade, fazem-se corpos dóceis, invadidos por agulhas e por medicações. O cinema, e parece, que os humaniza, torna-os novamente parte de um espaço, onde têm vontades e escolhas, permitindo-lhes ver e viver.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

O que se aprende quando se aprende Cinema no Hospital

Territórios Sensíveis-18/11/16 Enfermaria C. 5 crianças. Filmes: Liligrafia. Garrafa do diabo Lights out Peste da Janice Príncipes e princesas





“O que se aprende quando se aprende Cinema no Hospital” é a tese maravilhosa de Fernanda Omelzuck (UFRJ), pioneira no projeto de Cinema no IPPMG e uma das maiores responsáveis pela manutenção da atividade. Hoje, durante a prática, a pergunta título da tese persistia em me acompanhar. Quando me dou conta de que estou no hospital há 17 meses começo a perceber as transformações que ocorreram e ainda ocorrem a cada visita. Inicialmente apenas acompanhando as atividades propostas, atravessei um período indo sozinha às enfermarias e tive o pânico inicial de não conseguir dar conta das constantes demandas das crianças ou dos numerosos imprevistos que ocorrem quando se leva o cinema até o hospital. Estão bem claros na memória os primeiros momentos, quando um grupo de crianças ainda muito pequenas insistia em interagir com o projetor, chegando a grudar os olhos na lente, para meu total desespero. Um ano depois as intervenções das crianças me divertem e servem de motivo para que possa propor atividades. Hoje, enquanto elas assistem aos filmes, me pego pensando em práticas voltadas ao conteúdo do filme, à faixa etária e, como de costume, à recepção das crianças. Já consigo compreender o tempo de cada um deles, o momento em que se conectam com a projeção e quando grudam os olhos em mim, esperando mais alguma coisa. Enquanto as entretenho com perguntas, apontando esse ou aquele detalhe do filme, trago exercícios com brinquedos ópticos como o thaumatrópio e o praxinoscópio, nomes impossíveis para a pronúncia das crianças. Eles então reinventam os nomes, se apropriam dos brinquedos, acham graça na forma como são construídos. E, num universo de imagens e tecnologia, ainda me parece mágico que se possa encantar uma criança com um recurso de unir duas imagens e associá-las, apenas girando os discos do thaumatrópio. Mas talvez seja exatamente pelo inusitado que os meninos, ao terem em mãos um recurso de ilusão de óptica, quase todos, independente da idade, sorriem e querem também construir seu próprio brinquedo. As atividades não impedem a projeção dos filmes, que ocorre em paralelo. Enquanto o cardápio de filmes passa de entre eles, ligo o projetor e imediatamente varias mãozinhas começam a interagir com a luz. Entro na brincadeira e proponho que contem histórias com os personagens feitos com as sombras. Risos e negativas.Afinal, não sabem contar historias, dizem. Estimulo-os a criarem formas com as sombras das mãos e surgem um coelho, uma aranha e um cachorro que começam, como era de se esperar, a interagir. Pontuo os personagens e a mise-en-scene e é com espanto que alguns conseguem perceber que sim, acabaram de contar uma história. E ainda estamos no primeiro filme (Peste da Janice). Enquanto oferecemos as plaquinhas para que possam demonstrar se gostaram ou não do filme, peço que identifiquem os personagens e o que aconteceu com eles. E vamos nessa dinâmica ate o segundo filme, Liligrafia. Ali já vejo alguns rostos mais silenciosos e um pouco entediados,pois trata-se de um filme com menos ação. Contudo, uma das meninas interage com a narrativa, descobrindo personagens, enquanto os outros apenas assistem. Ao final do segundo filme recebo o pedido para filmes de terror de três crianças. Temos em arquivo algumas histórias com essa temática, ainda que voltados para o público infantil e, por sugestão de um dos componentes do nosso grupo, exibimos Day Light, curta-metragem de 2 minutos que deixa os meninos eletrizados e que preciso exibir novamente, a pedido da plateia. Contudo, nem todos gostam. Uma das meninas esconde o rosto com o lençol e chega mesmo a virar de costas,dizendo detestar o gênero. Nem mesmo Garrafada do Diabo, o próximo filme a ser exibido, consegue demovê-la da posição. E é assim, de costas para a tela, que ela fica até o momento em que resolvo colocar Príncipes e Princesas, o último dos filmes. Logo que escuta a narração e a palavra princesa a menina olha discretamente por sobre o ombro e instantaneamente se vira para assistir. Ao final do primeiro capítulo do filme (composto de algumas histórias com a mesma temática de príncipes), todas as crianças estão com seus thaumatrópios em mãos e os giram diante dos olhos. Todos menos A., de seus 10 anos, que já conhecemos de outras visitas. Ele não interage conosco, apenas acompanha silenciosamente, enrolado em seu cobertor. Da mesma forma C., na mesma faixa etária, não se aproxima da projeção. Apenas aproveita o recurso da divisória de vidro entre os dois lados da enfermaria para poder assistir ao filme. Paciente de outras semanas de visita, C. também conhece algumas das historias exibidas. É ele que me conta detalhadamente a sinopse de A garrafa do diabo. Ao final do dia percebo que cada um dos meninos vivenciou a experiência com o cinema de uma forma. Seja com a intervenção direta na projeção, através dos brinquedos óticos ao tentarem adivinhar o lugar da câmera ou apenas acompanhando a movimentação, cada criança criou sua própria experiência, compartilhando-a com os demais conforme foi de seu interesse. No momento em que se baixa a luz da enfermaria e se abre uma janela pela projeção dos filmes as crianças interagem, começam a se apropriar das histórias e as dividem com os demais, apontando elementos e debatendo sobre as atividades propostas. Enquanto conversam, nem sempre deixam a porta aberta para que eu entre em suas interações. Preciso pedir licença, como sempre, para que me deixem penetrar nesse território. O minuto em que consigo sua atenção é mágico.e assustador.Por vezes me pego pensando, no meio de uma atividade, o que mais posso fazer para entretê-los e o quanto podem achar interessante determinada prática.Contudo, de todas as atividades nada me deixa mais feliz do que ver suas mãos atravessando a luz, interferindo no filme e criando, instantaneamente novas histórias e personagens,que vão habitar a enfermaria junto com seus criadores.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

territórios sensíveis- 281016

Duas horas.120 minutos. Nove crianças. Duas enfermarias. Seis filmes. Quantitativamente, a experiência do cinema nesta última sexta-feira tem números relevantes.Afinal, não é todo dia que conseguimos montar a projeção em três ambientes, com escolha de filmes pelos meninos e,nos intervalos, a prática com brinquedos óticos.Mais do que isso, com a participação de quase todas as crianças internadas.Contudo,o valor maior da prática de não está nos números, mas nos rostos, na percepção de que realmente conseguimos criar um ambiente sensível para além dos muros, que se reflete nos olhos das crianças,nas mãos curiosas que se apropriam dos flipbooks e do praxinoscópio e o fazem girar. Se o projeto de cinema tem uma particularidade, já diversas vezes citada, é sua imprevisibilidade,dadas as reconfigurações constantes do seu ambiente.Talvez por isso também, os limites de seu território são impossíveis de precisar, podendo expandir-se ou encolher-se ao sabor dos acontecimentos.Assim foi hoje.Tão logo começamos, recebemos o apoio entusiasmado de todas as crianças internadas,seja escolhendo filmes, fazendo muitas perguntas ou apenas ajeitando-se na cama para melhor assistirem ao filme.Tenho hoje uma faixa etária que poderia definir entre os seis e doze anos , divididos entre meninos e meninas..Contudo com nenhum deles temos a rejeição ao cardápio de filmes,como costuma acontecer sempre que temos crianças mais velhas entre nós. O primeiro filme a ser exibido é Ernesto no país do futebol,escolhido por mim para Miguel, cuja mãe informa que ele tinha predileção por futebol. Enquanto isso, trago o praxinoscópio diante de Pérola, que fica encantada e me pergunta onde vou exibir o filme.Respondo que vou arrumar a cortina(todos os filmes são exibidos no blackout da enfermaria)para podermos começar a sessão. Ela sorri e diz “puxa,então nem vai parecer mais a enfermaria,vai ficar igual o cinema,só falta a pipoca”, me fazendo sorrir. A referência à pipoca é uma unanimidade entre adultos e crianças internados e sempre me pego pensando se seria possível ,pelo menos um dia,atender a essa solicitação.Enquanto mostro a Alessandro(que já participara antes de outra exibição,pois me recordo de seu rosto) o brinquedo ótico, peço às demais crianças que escolham seus filmes. Algumas escolhem devido ao nome. Outras,por intervenção materna. Recebo o pedido para exibir Cada qual com cada seu, filme de 15 minutos que fala de crianças do Rio de Janeiro. E sou surpreendida pelo pedido para ver A velha a fiar, que resgata jogos de memória, tão presentes nas brincadeiras infantis. Após o filme, as crianças recebem as plaquinhas, para que possam manifestar suas opiniões sobre os filmes e todas exibem a placa do bonequinho aplaudindo.Estamos na terceira exibição quando recebo o pedido para que visite outra enfermaria,porque há dois meninos,Ruan e Leonardo, que estão recebendo transfusão e queriam muito ver filmes. É interessante como a grande maioria dos profissionais de saúde enxerga o cinema como uma distração,mero entretenimento.Contudo, quando assistem aos filmes as crianças por vezes deixam seus jogos, tvs,tablets e brinquedos para concentrarem-se na experiência fílmica,que ocorre em uma cortina rasgada, em meio ao barulho e à movimentação da enfermaria. Se o cinema não serviria para distraí-los mais do que seus costumeiros brinquedos, que componente seria esse que os faria conectar-se à grande imagem à frente?seria o componente inusitado da reconfiguração e ressignificação do espaço? Ainda não consigo precisar. Enquanto isso exibimos o último filme na enfermaria C e partimos para a B,afinal nosso público nos aguarda.Devido ao adiantado da hora já encontrou os meninos sentados em cadeiras e proponho irmos minhocas,animação em stop-motion que sempre encanta adultos e crianças. Como que a confirmar minha fala,logo um pai vem sentar-se com seu bebê, que assiste o filme sem desviar os olhos da tela. Ao final,enquanto aguardamos os equipamentos, consigo me surpreender com a quantidade de atividades realizadas,algo que nunca acontecera antes.Talvez seja o componente necessário à prática: não fazer planos e estar sempre aberto às constantes modificações,caso do dia de hoje.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Cinema no HU -111016 Do cinema que se faz nos silêncios

A experiência do cinema no hospital envolve primordialmente a invisibilidade e o deslocamento. Partindo dessa premissa não é difícil supor que nem sempre tudo sai como planejado, por melhores que sejam nossas intenções. Assim foi hoje, quando eu previra exibir The Red Balloon, belíssimo filme de 1956.Além disso, pela primeira vez eu tentaria propor uma atividade diferente da dobradinha exibição + debate. Com alguns planos do filme impressos eu tentaria fazer com que os pacientes contassem suas histórias. Quis o acaso que o equipamento não estivesse disponível e me coube perambular pelos corredores em busca de soluções que, infelizmente, não vieram. Acontece que o olhar que se abre para o exercício do cinema jamais encontrará sossego novamente. Sem descanso, a cada esquina novas histórias se apresentam, combinando realidade e poesia. E foi assim que, em um dia particularmente controverso da nossa história atual (momento de aprovação de uma PEC que congela os investimentos em Saúde e Educação por 20 anos) comecei a enxergar o hospital como um grande palco inserido em uma realidade completamente adversa. Aqui e ali os personagens se sucediam, como em uma peça bretchiana, tentando exercer sua função. Em todos os cantos sobressaem os buracos, seja nas paredes, nos leitos ou nas almas (me perdoem pesar a mão no drama. O momento faz-se necessário). Para o observador mais desatento não passará desapercebido o abandono das pilastras da entrada, os resquícios de obras inacabadas, que se sucedem sem descanso pelos corredores, a enorme fila de pacientes nos ambulatórios. Circulando sem cessar os profissionais de saúde, sempre sem parar um só momento, tentando preencher com seus corpos as ausências, financeiras e afetivas. Daqui de onde olho, do desconfortável lugar de contar histórias em um ambiente onde tantas narrativas se confrontam (muitas desagradáveis), penso na cena seguinte, no próximo mês de um longo período sem investimentos em um dos maiores hospitais do país. Penso nas enfermarias, estufas no verão, geladas no inverno, onde se encolhem em seus cobertores pacientes que não podem apreciar a paisagem, posto que as janelas(concebidas para serem panorâmicas) estão cobertas de insulfilme descascado. Penso nas salas onde as macas, cadeiras e comadres se acumulam, sem substituição. Percorro os corredores onde as portas, envelhecidas, rangem e empenam. Me assusto com a rouparia, de onde um lençol pode levar semanas para sair. O que mais me assusta, contudo,não são os suprimentos, facilmente substituíveis,mas o material humano, esse único, pessoal e intransferível. O que ocorre se ele exaurir suas forças, perder seus recursos, recusar-se a continuar colaborando, ante a absoluta falência da instituição? O que restará da saúde como direito fundamental, intrinsecamente associada não somente à cura de doenças mas a garantia de bem estar(tanto individual como social?)Nos restará, indubitavelmente a morte e o esquecimento. Impossivel, nesse lugar, não me lembrar de uma palestra, ouvida recentemente. Ali, onde Walter Carvalho deveria falar sobre direção de fotografia. Em dado momento o fotógrafo dizia que o obturador da câmera permanece apenas metade do tempo aberto, capturando o mundo.Na outra metade do tempo ele permanece fechado, fazendo o filme(atualmente o sensor) voltar à posição/condição “original”. Sendo assim, Carvalho concluía, parte do cinema se faz em nossas mentes no escuro e no silêncio. Daí sua importância para pensar e transformar o mundo. Assim, em tempos tão sombrios começo a pensar o cinema como mais do que uma experiência narrativa, mas em sua potência de ocupação de espaço, como estratégia, necessária e urgente, de reExistência.